Há dias em que a coragem não vem. E aí o negócio é seguir sem ela mesmo. Porque a vida, do outro lado, não pode parar.
Benedita.
Bendita.
Dita.
Seguir o roteiro e, como que numa encruzilhada, sobreviver sã num mundo que deseja — e, muitas vezes, trabalha para — te enlouquecer.
A gente sabe que a vida fica melhor quando percebemos mais as bênçãos do que os problemas. Mas, quando se está mergulhada em perturbações e devaneios, o afogamento é quase inevitável.
É fácil para quem só observa. O corre de cada dia de uma mãe que não pode parar beira o precipício. Horas ideais de sono, alimentação saudável, lazer, a prática de um hobby, um relacionamento que lhe afague ao final do dia, um fim de semana para cuidar de si.
Privilégios de um mundo distante da verdadeira realidade de muitos lares.
As estatísticas nos mostram a porcentagem de mulheres negras que sofrem com problemas ligados à ansiedade e à depressão. Nas periferias, nomenclaturas como burnout e síndrome do pânico muitas vezes não têm espaço. A mãe preta precisa continuar.
É ela quem faz a roda girar. É ela quem está segurando e fazendo os pratinhos rodarem.
Então, ela segue.
Ela segue porque é ela quem cuida também dos filhos que passam por esses tormentos.
O racismo, além da exclusão e do apagamento, traz essa ruptura na alma.
Eu me desligo do mundo que não me vê.
Setembro chega colorido. Mas há quem atravesse suas cores carregando dores que ninguém vê.
No mundo digital, CAPS virou piada. Em muitos lugares, porém, é de lá que vem o socorro. Ou o pequeno alívio para a vida de mães negras que, infelizmente, não vivem, mas sobrevivem.
Tratamentos com especialistas não cabem no orçamento, e o CAPS vem, muitas vezes, para oferecer esse afago.
A alma pede.
O corpo precisa.
O coração sangra.
A mente não para.
A solidão dentro de uma casa cheia. A invisibilidade que a sociedade proporciona. O desprezo daqueles que só as veem como mão de obra, mesmo quando já são quase da família.
Por isso, quando vir uma mãe a sorrir, a sambar, a louvar, a se despir, deixem-na celebrar.
É a alma dela tentando se libertar.
Muitas não conseguem — mesmo que digam que é só tentar.
Muitas não conseguem — mesmo ouvindo que todo mundo tem as mesmas 24 horas.
Muitas não conseguem — mesmo tendo uma suposta rede de apoio.
Muitas não conseguem.
Nas trilhas da vida, sem rumo, seguiu. Precisava curar o que, em outras vidas, não conseguiu. No interior, na busca por si, deixou um legado ainda desconhecido por muitos.
Usou aquilo que chamavam de loucura. Encontrou-se na “loucura” de seus semelhantes e viveu, com os pés no chão, o mais lindo propósito do assistencialismo.
Viveu a loucura que é estar na vida para o outro.
Bendita seja Benedita.
Sem filhos biológicos, foi mãe de tantos. Mãe daqueles que viviam à margem, excluídos pela pobreza, pelo abandono ou por aquilo que a sociedade chamava de distúrbio mental. Acolheu pequenos órfãos e dedicou-se também àqueles que eram considerados loucos.
Fez do cuidado uma forma de existência.
Talvez a maternidade, para ela, nunca tenha cabido nos laços de sangue.
Dita é a representação de tantas mães negras espalhadas por aí: que lutam por si e pelos outros.
Natália Veloso é professora, escritora, palestrante, colunista e mãe de três. Pedagoga e licenciada em Letras, atua há mais de 20 anos na educação. É estudiosa das relações étnico-raciais, da diversidade e de uma educação comprometida com a equidade e a valorização das diferenças. Autora e coautora de publicações literárias, acredita na potência da palavra como instrumento de transformação, representatividade e construção de novas narrativas. Instagram: @netveloso