Crônica – Angústia

Em nenhum momento eu me lembro de ter sonhado em como eu estou agora. Me sinto presa em um lugar aberto de onde não sei para onde correr. Foi com essa sensação que acordei nesta manhã. Agora, passadas doze horas, sinto que esse comprimido pode me trazer um descanso, talvez. O que nem sempre acontece, pois sei que amanhã acordarei cansada novamente.

Quanto tempo terei que viver nessa angústia?

Ao passar a mão pelo meu rosto, senti a pele mais áspera e percebi, olhando no espelho, que não era mais a mesma pessoa. Às vezes não me reconheço. Hoje eu não tenho mais a pretensão de ser quem eu era. Imagina, pensava que depois da maternidade eu poderia voltar a ter a mesma vida depois de um ano ou dois. Dizem que após o parto, o corpo da mãe volta ao lugar. Deve ter voltado, não sei, não me encontrei nela. Cheguei a buscar durante um tempo, penso que estava procurando a pessoa errada.

A chegada de duas novas vidas na minha vida me deu outras perspectivas, muitos medos e novas descobertas, porém sinto estar no meio de um mar de gelo, sem ter onde pousar o olhar. É assim que me vejo todos os dias. Procuro um caminho entre o branco da neve, por todas as perspectivas que se me abriram. Não há a olho nu, e ainda assim, infinitas possibilidades. Basta só escolher uma direção, diriam. Pés fincados no gelo e, enquanto isso, preciso viver. Preciso me manter firme, produzindo. E eu faço isso. Eu dou risada de mim mesma, enquanto assisto, orgulhosa, a meus filhos crescerem e enquanto crescem me ensinam que é bom olhar para essa imensidão branca, mesmo que seja assustador.

Vejo-os lendo o mundo, e diante da dificuldade dos fonemas e das sílabas, como leio minhas emoções quando estou farta da rotina? Sinto o fracasso gelar os ossos, enquanto preparo a comida. Entre materiais escolares, alguns brinquedos, papéis picados e letras rabiscadas, acompanho toda a evolução. A vida vai acontecendo nos instantes. E de instante em instante, vou aprendendo enquanto ensino. Esforço atrás de esforço. Olhar voltado para mim, procurando o desconhecido da mente. Novamente um comprimido para ajudar a pousar o olhar, ajustar as lentes e enxergar no meio da imensidão. O som de diversas vozes se dissipa. Fraco, dá lugar ao barulho do vento, gelado. Consigo olhar melhor, sem confusão. Encontrar onde pousar o olhar.

Texto de: Edna Montenegro – @ednarsmontenegro

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