Lésbica, Preta e Mãe: O que sei sobre ser uma mãe preta e sapatão

Ser mãe é uma jornada repleta de percalços. Mas, quando você é uma mulher lésbica e negra, essa jornada ganha contornos ainda mais complexos e singulares. Vivendo em um país marcado pelo racismo e pela discriminação, eu sabia que enfrentaria desafios únicos ao criar minha filha.

Desde cedo, percebi que minha maternidade seria diferente da maternidade da maioria das mulheres que conheço. Ser mãe preta e lésbica é uma realidade que poucas pessoas compreendem completamente. Minha jornada se tornou um exercício constante de rejeição de estereótipos e desafio aos padrões opressivos, não só em relação à maternidade, mas também em questões de gênero, raça e sexualidade.

Foi ao mergulhar nas palavras de Audre Lorde e Lélia Gonzalez que encontrei acolhimento, aprendizado, eco para meus questionamentos e inspiração para reforçar minha identidade e valorizar minha herança cultural afro-brasileira.

Audre Lorde, com sua escrita intensa e perspicaz, trouxe à luz a realidade de ser uma mulher negra lésbica que também é mãe. Ela não apenas abordou a potência dessas experiências interseccionais, mas também apontou as dificuldades enfrentadas por mulheres como eu. A maternidade lésbica negra muitas vezes é invisibilizada e desvalorizada pela sociedade. Lorde nos lembra que o silenciamento de nossas identidades marginalizadas só nos enfraquece, e que é preciso criar comunidades de apoio, espaços seguros e acolhedores onde possamos compartilhar experiências, encontrar força e prosperar, nós e nossas famílias.

Lélia Gonzalez, por sua vez, nos convida a valorizar nossa ancestralidade e reconhecer na figura da “Mãe Preta” a centralidade da formação da identidade brasileira. Ela transcende a ideia tradicional de maternidade biológica e assume a função de educadora não formal, guardiã da história e da cultura afro-brasileira, transmitindo herança cultural do povo negro neste território.

Ao cruzar as perspectivas dessas duas autoras, percebo que a maternagem lésbica negra não se limita à criação e nutrição dos filhos. Ela desafia padrões sociais, rompe com estereótipos prejudiciais e enfrenta, além dos desafios comuns da maternidade, a discriminação racial e a lesbofobia.

Nossa existência é um ato de resistência poderoso. E investir energia em criar espaços seguros e acolhedores para nós, nossos filhos e nossas famílias não é um luxo, é necessidade, é sobrevivência.

Ser mãe negra e lésbica no Brasil é uma jornada revolucionária e subversiva. Mas é também uma possibilidade de celebrar nossa existência plena. Ao honrar minha identidade, posso ser um modelo para minha filha, mostrando a ela que sua existência é válida e que sua voz deve ser ouvida.

Assim, minha maternidade se torna um ato de amor expandido, que abraça não apenas minha família, mas minha comunidade como um todo. É assim que ensino à minha filha não apenas sobre suas raízes culturais, mas também sobre igualdade, respeito à diversidade e luta contra o preconceito. Meu propósito é criar esse espaço seguro e amoroso que Audre Lorde descreveu, para que minha filha se desenvolva plenamente.

Aproxime-se, ouça e aprenda com mães lésbicas negras. A valorização dessas experiências é fundamental para construir uma sociedade mais inclusiva, justa e plural, onde todas as vozes sejam ouvidas e todas as formas de maternidade sejam celebradas e respeitadas.

Que o legado das que vieram antes continue a nos inspirar a abraçar nossa maternidade com orgulho e nos tornar educadoras de uma nova geração de pessoas pensadoras, sonhadoras e agentes de mudança.

Nossa maternidade reflete a nós mesmas e o mundo. Conhecer autoras como Lélia Gonzalez, Audre Lorde e tantas outras fortalece em mim a convicção de que ser mãe preta e sapatão é um ato de amor político, resistência e poder. É uma bênção e um privilégio ser quem sou. Minha existência importa. E minha filha é a materialização da minha resistência.

Nossos passos vêm de longe. E juntas, seguiremos firmes, vivas, resistindo.

Texto por: Gabriela Souza – @gabinamaspreta

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