Há palavras que terminam no instante em que são pronunciadas.
Outras escolhem uma criança para morar.
Elas entram sem pedir licença. Instalam-se devagar. Repetem-se tantas vezes que deixam de soar como opinião e passam a parecer destino.
Quem trabalha com crianças aprende a reconhecer esse tipo de palavra.
Ela aparece quando um menino diz que é burro antes mesmo de tentar resolver um exercício.
Quando uma adolescente pede desculpas por existir antes de pedir ajuda.
Quando uma criança responde a uma pergunta olhando para o chão, como se já esperasse estar errada.
Essas palavras raramente nasceram nelas.
Alguém as colocou ali.
Ao longo de quase duas décadas escutando crianças e adolescentes, aprendi que a violência nem sempre deixa hematomas.
Às vezes, ela chega pela linguagem.
“Você não serve para nada”.
“Você nunca será ninguém”.
“Ninguém vai acreditar em você”.
As frases mudam.
O mecanismo permanece.
Com o tempo, a voz do adulto deixa de ser necessária.
A própria criança passa a repetir a sentença.
Como se aquela narrativa tivesse se transformado na única verdade possível sobre si mesma.
Talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de violência.
Quando uma criança deixa de sonhar, não porque lhe faltam capacidades, mas porque lhe ensinaram, muito cedo, quem ela supostamente deveria ser.
Demorei muitos anos para compreender por que esse tema sempre retornava à minha escrita.
Eu acreditava que escrevia sobre infância.
Depois pensei que escrevesse sobre racismo.
Hoje suspeito que escrevo sobre outra coisa.
Escrevo sobre as palavras que habitam uma infância.
Porque também fui uma menina atravessada por elas.
Meu pai quase nunca me chamava pelo meu nome.
Minha mãe, quando queria me repreender, repetia uma frase que atravessou muitos anos da minha vida:
— Nossa… você é tão pequena… tão insignificante.
Naquela época, eu não conhecia o peso daquela palavra.
Mas crianças não precisam compreender uma palavra para acreditar nela.
Elas aprendem primeiro pelo olhar de quem a pronuncia.
Depois, silenciosamente, fazem dela uma parte da própria identidade.
Passei muito tempo acreditando que precisava deixar de ser insignificante.
Estudar mais.
Trabalhar mais.
Conquistar mais.
Como se a dignidade pudesse ser alcançada por esforço.
Só muito mais tarde compreendi que nenhuma criança deveria crescer tentando provar que merece existir.
Existe uma violência particularmente cruel contra meninas negras.
Além do racismo que insiste em diminuir seus corpos, elas também convivem com expectativas estreitas sobre aquilo que poderão ser.
Aprendem cedo a ocupar pouco espaço.
A falar baixo.
A não incomodar.
A agradecer quando apenas são toleradas.
Não são apenas oportunidades que lhes são negadas.
São possibilidades de imaginar a si mesmas.
E talvez seja justamente aí que a literatura se torne um gesto político.
Cada vez que uma mulher negra escreve sua própria história, ela rompe uma narrativa que durante séculos foi escrita por outras pessoas.
Cada livro amplia o repertório de existências possíveis.
Cada texto diz a uma menina que ela não precisa aceitar como destino as palavras que um dia colocaram dentro dela.
Escrevo porque trabalho onde as infâncias chegam feridas.
Mas também porque sei que algumas feridas não aparecem nos relatórios.
Elas vivem na linguagem.
Na forma como uma criança passa a se apresentar ao mundo.
Na vergonha que antecede a própria fala.
Na dificuldade de acreditar que sua voz merece ser escutada.
Talvez seja por isso que continuo escrevendo.
Porque acredito que as palavras também podem fazer o caminho de volta.
Se algumas foram capazes de diminuir uma criança, outras podem ajudá-la a reconstruir a própria imagem.
Não para apagar o passado.
Mas para que ele deixe de ser a única história possível.
Hoje, quando termino um texto, penso menos em quem irá lê-lo.
Penso na menina que um dia acreditou ser pequena demais.
E em tantas outras meninas negras que ainda estão aprendendo quem são.
Espero que elas encontrem, nas palavras de mulheres que vieram antes, aquilo que toda infância merece receber.
Não uma sentença.
Mas um horizonte.
Texto de: Diane Ribeiro Souza Ferreira – @dianeribeiro.autora
Revisão: Angélica Filha





