“A mãe não tá nem ai pra nóis”. Foi a frase que minha filha, Ana Júlia, de 6 anos, falou. E isso me atravessou. Uma fala dita 24 horas após eu ser diagnosticada com lúpus. Vinte e quatro horas após iniciar um processo de sentimentos e emoções misturados: a felicidade por, finalmente, dar nome aos sinais e sintomas que investigava havia um ano, e a impotência diantes das dúvidas de conviver com uma doença autoimune, ativa e até então desconhecida pra mim.
Foi assim que conversei com minha filha. Expliquei que estou vivendo um novo ciclo, um período em que tento conhecer minha nova condição de saúde. Disse que, em alguns momentos, não estarei presente para ela como sempre estive, porque estou doente, mas que ficarei bem e aprenderei a conviver com a doença para ter qualidade de vida.
Durante minha fala, Ana Júlia afirmou que ela também já havia ficado doente e que tinha sarado. Eu a ouvi e fui às lágrimas.
Minha filha me olhou atentamente e acrescentei que, em alguns momentos, eu também iria chorar, porque isso ajuda a aliviar o coração. Disse que não há problema algum em chorar.
Ao final da minha conversa, enquanto eu secava minhas lágrimas, perguntei a Ana Júlia se eu poderia abraçá-la. Ela me devolveu a pergunta:
— Pode ser um abraço forte ou fraco?
Sorri, chorei e respondi que poderia ser um abraço forte.
Fui acolhida pela minha cria, aquela que me ensina, todos os dias, como ser a mãe que ela precisa. Foi naquele abraço que percebi que estava aprendendo a me permitir ser cuidada.
O afago e afeto que recebi de Ana Júlia me fizeram refletir que era a primeira vez que eu aceitava, genuinamente, ser cuidada. Foi o mesmo cuidado que também aceitei do meu companheiro e parceiro de vida, que me beijou e disse que cuidaria de mim, que estaríamos juntos em mais esse ciclo de nossas vidas.
Percebi, também, que conversar com minha filha me levou a compartilhar meu diagnóstico nas redes sociais, como uma necessidade de me acolher e de permitir que minha vulnerabilidade emocional fosse vista diante da minha atual condição de saúde.
Esse compartilhamento fez chegar até mim palavras de fé, espiritualidade e axé vindas de pessoas diversas, com quem construí vínculos ao longo da vida: amizades da infância, da adolescência, da vida adulta, presenciais e também virtuais.
A fala da minha filha, dizendo que eu não estava dando atenção nem para ela e nem para o meu companheiro, era verdadeira. O diagnóstico me levou ao encantamento.
Isso significa que me levou a refletir sobre o quanto sempre estive presente para as outras pessoas e tão distante de mim mesma. Também me fez perceber que eu não estava vivenciando trocas afetivas justas e equilibradas.
Por isso, este novo ciclo é de acolhimento, reencontro e permissão para viver pausas e repousos. Um intencionar, sem culpa, de estar aí para mim.
Texto de: Rúbia de Fátima Mendes – @rubiamendes.psipreta
Revisão: Bibianne Terra





