Dois poemas de Taís Abel

Gritos

Ecolalias rasgam meu ventre
suplico por socorro
ninguém nos atende

Ecolalias dilaceram meu coração
estendo minhas mãos
ninguém nos puxa

Ecolalias tiram meu ar
olho pro lado e vejo
quem alguém sempre esteve aqui
e a ela devo socorrer

E quem me socorre?
Gritos

Monólogo não – verbal

Era domingo e ele demorava a passar
e você do meu lado sem falar
e eu o tempo todo buscando dialogar
Cansada, resolvi um dia dessa função abdicar
e como foi difícil silenciar
ouvir somente o som tocar
a mesma frase da tv soar
Sair da sala 
Ir à cozinha
Comer
Beber água
Banho tomar
Marasmo quebrar
Ir ao quarto
Ir à cozinha
Comer
Beber água
Chorar
Chorar
Queria uma criança para conversar
Assim que subitamente
Em meio a silêncios e trocas de olhares e beijos
Recebo em minhas mãos um termômetro
A menina não verbal queria medir minha temperatura
Espantei-me ao constatar
Uma febre de 39 graus estava a me assolar.

Texto de: Taís Abel – @taissabel

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