Nenhuma vaga para quem sobrevive

A spacious modern office lobby featuring bright red chairs and glass windows with abundant natural light.

Ela batia os pés no chão em um ritmo descompassado. Estávamos as duas nervosas. A sala era fria, gélida, iluminada por luzes brancas. Atrás do balcão, a moça da recepção mantinha um olhar distante. Enquanto isso, na minha cabeça, o eco era um só: “Mamãe, tô com fome”.

Mantive-me firme. Postura ereta, bolsa no colo, tentando domar o invisível. Ele entrou na sala com passos pesados. Roupa social, barba preta e densa, uma caneta em punho.

— Maria Suzana da Silva?

A moça ao meu lado me encarou com olhos de guerra, como se fôssemos inimigas mortais. Eu não sentia o mesmo. Via o desespero dela refletido no meu. Por isso, sorri e disse:

— Boa sorte.

Ela hesitou, estranhando o gesto. Depois respondeu:

— Para você também.

O homem observava quase incrédulo. Dizem que competimos por tudo, mas nem toda disputa precisa ser desleal. Minha mãe dizia: “O que for seu, será”. E eu acreditava — fosse a vaga, a dor ou o medo de não dar conta.

Levantei-me para pedir um copo d’água. A recepcionista, embora quieta, foi gentil. Perguntei há quanto tempo ela trabalhava ali.

— Três anos — respondeu, seca, mas sem grosseria.

Mostrei a foto no celular e disse:

— Este é o Mateus e este é o Jhordan. Estou aqui por eles. Preciso muito dessa vaga.

O olhar dela mudou. Ela me olhou de um jeito mais humano e chamou:

— Vem aqui.

Fui até o balcão, confusa. Sem dizer nada, ela prendeu meu cabelo com um pouco de creme, domando os fios para que meu crespo não fosse o primeiro julgamento dele. Com uma maquiagem simples, ajeitou meu rosto com delicadeza.

Esperei por vinte e oito minutos. Até que a outra candidata, Maria Suzana, saiu da sala com um sorriso discreto. Aquilo me atravessou como um golpe de medo. Pensei em desistir. Pensei se existia “perda de tempo” para quem já não tem tempo nenhum.

O ar foi cortado pelo meu nome:

— Rute Josias Lyra?

Minhas pernas vacilaram. Suei frio e a bolsa escorregou do colo, espalhando meu cansaço pelo chão. Levantei sem firmeza, desconcertada pelo sorriso da outra moça; parecia que a batalha já tinha dona.

Foi quando ouvi, ao fundo, um sopro de vida:

— Boa sorte, dona Rute.

Era a recepcionista. Aquele apoio me trouxe de volta ao centro de mim.

Entrei. Sentei-me à frente dele. O cheiro estéril de produto de limpeza invadia a sala. Ele começou sem me olhar nos olhos:

— A senhora tem um bom currículo. Está se candidatando para a administração, correto?

— Sim, exatamente.

Ele folheou os papéis.

— Reparei um intervalo grande sem registro em carteira. A senhora tem filhos?

— Tenho. Meu esposo faleceu e precisei me dedicar integralmente aos meus meninos nesse período.

— Quantos? — a voz dele era um martelo batendo num prego.

— Dois.

— Idades?

— Sete e onze anos.

— E estão com quem agora?

— No colégio — respondi, tentando manter a voz firme apesar da invasão.

Ele encostou-se na cadeira, cruzando os braços.

— E como a senhora sustentou a casa esse tempo todo?

— Trabalhos informais. Faxinas, o que aparecesse. E conto com o auxílio do governo para garantir o mínimo.

Ele me encarou. Mesmo assim, continuei:

— Tenho pós-graduação e estou me especializando em Recursos Humanos. Aprendo rápido e sei que posso contribuir — despejei as palavras, tentando fazer com que meu intelecto ocupasse mais espaço naquela sala do que a minha condição social.

— Seu currículo é bom — disse ele.

Enquanto isso, meu celular vibrava dentro da bolsa. Ignorei. Aquela era a “oportunidade da minha vida”. Eu sabia que o salário era baixo e os benefícios quase inexistentes, mas ainda era o melhor que eu tinha.

O aparelho insistia, em desespero. Até que ele disse, num tom de falsa cortesia:

— A senhora pode atender.

Peguei o telefone. Li, num relance que destruiu o resto da minha vida: “Dona Rute, o Jhordan levou um tiro de bala perdida na cantina do colégio. Estamos levando ele para o Hospital Central”.

Ali, o mundo emudeceu. Dizem que desmaiei. Lembro apenas de um zumbido agudo e de uma sombra crescendo sobre mim.

Acordei deitada, sentindo a mão da recepcionista alisando meu cabelo. Ao fundo, uma voz:

— Quem sai para procurar emprego sem comer? Desmaia mesmo.

Minha resposta não saiu. Ficou presa no estômago vazio: eu não comia havia mais de vinte e quatro horas.

Dias depois, o e-mail: “Seu currículo é excelente, mas não foi selecionada”.

Hoje, a memória é um borrão. Foram onze horas de espera na porta da cirurgia. Meu filho não caminha mais. No relatório, as frases de sempre: dizem que foi a polícia, dizem que foram os traficantes. Para o Estado, é estatística. Para mim, é o Jhordan.

Se não fosse Mariana, a recepcionista, eu estaria só. Demitida e sem mãe, ela encontrou em mim o afeto que lhe faltava — um encontro de almas. Aos quatro meses de gestação, já é mãe solo; o pai sumiu assim que soube.

Agora dorme lá em casa. Mariana me ajuda com Jhordan, e eu cuido dela. Uma ampara o que restou da outra.

Às vezes fico pensando… Meu marido morreu às cinco da manhã, indo trabalhar, atropelado por um homem bêbado. Fiquei viúva cedo, com o mais velho ainda bebê. O motorista segue a vida; eu sigo sem o pai dos meus filhos, com um menino tetraplégico e outro aprendendo o peso de ser preto e pobre.

Às vezes me dizem:

— Falta Deus na sua vida, Rute.

Eu olho para as minhas mãos calejadas, para a cadeira de rodas do meu filho e para a barriga da Mariana, e entendo que não. Não falta Deus. O que falta é outra coisa.

Falta política pública. Menos fuzil e mais livros. Falta água e comida. Falta escola, falta merenda, falta médico, falta o mínimo.

Não é de fé que o brasileiro precisa. É de dignidade. É de responsabilidade social.

Porque a gente não quer apenas sobreviver.

A gente quer viver.

Por Deyse Luiza Lima – @escritoradeyseluiza

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