Nossa caçula era recém nascida, eu estava dando de mamar pra ela quando ele sentou ao meu lado e disse que estava apaixonado por outra mulher. Eu estava vivendo até então o momento mais feliz da minha vida pois minha família estava finalmente completa. Meu mundo caiu, ruiu, desmoronou, se quebrou por inteiro.
Que poder é esse que dei a esse homem?
Coloquei a bebê em seu colo, troquei minha roupa, vesti um conjunto de moletom que me abraçasse e deitei na nossa cama em posição fetal, ninguém me tiraria dali. Comecei a chorar e não lembro quando parei.
Ele falou que me colocaria num avião com nossas duas filhas pra eu ir morar junto à minha família na Paraíba. Eu não arredaria o pé daquela casa que tinha sido um lugar de tanta felicidade pra mim, eu não daria a separação assim tão fácil, eu tinha acabado de colocar nossa segunda filha no mundo. Além disso, eu vivia minha vida em função da dele há sete anos! Desisti até do meu mestrado por esse casamento, por nossa família! Eu tinha a força de uma leoa para lutar pela minha família e por tudo o que tinha vivido naqueles sete anos de casamento.
Mas essa não foi minha melhor escolha e essa não foi a primeira vez que me traiu. Ele me traiu no nosso namoro e no nosso noivado. Eu o perdoei todas as vezes porque eu não queria voltar pra casa. Meu pai era alcoólatra e ficava agressivo nesses momentos. Minha mãe era narcisista. Viviam em pé de guerra. Nossa casa era um inferno.
Diferente de como foi com nossa filha mais velha, com a caçula ele ajudou muito pouco a cuidar quando era bebê, ela nem ligava pra ele naquela época, pois ele não fazia questão de se fazer presente. Ele chegava tarde do trabalho, às vezes não almoçava em casa mesmo a gente morando ao lado do seu trabalho. Até mesmo pra levar nossa primogênita à escola eu tinha que me virar sozinha.
Ele parecia outra pessoa, acho que estava com ódio de mim por não permitir que ele fosse feliz. Ele também não estava permitindo que eu fosse, arrancou de mim minha felicidade num momento tão sublime. Nossa família era tudo o que eu tinha, tudo o resto tinha ficado pra trás: carreira, amigos, família… Na maioria dos dias ele chegava em casa gritando e falando palavrões, o clima pesava. Eu dava uma de doida, começava a cantar bem alto. Sei muito bem de onde tirei forças, eu era mãe!
Infelizmente naquela época eu não tinha percebido que aquele era o momento perfeito, o momento ideal pra eu sair da vida dele, pra tirar nossas filhas da presença dele.
Não contei pra minha mãe e nem pra minha irmã o que eu estava passando, contei pra quase ninguém preocupada com a imagem dele. Que idiota! Foi difícil passar por aquele ano inteiro lutando sozinha, chorando escondida da nossa filha mais velha. Nossa bebê sentia tudo, eu passava tudo pra ela através do peito. Ela cresceu com essa dor do pai e naturalmente defensora da mãe porque sentiu as lágrimas quentes na sua bochecha enquanto mamava.
Ele estava sem paciência, pavio curto, então qualquer coisa o irritava. Teve um dia em que foi procurar algo num armário da despensa e se irou quando viu várias sacolas de presente, jogou tudo no chão porque ele não conseguia achar o que queria. Eu me assustei com a palavrões e o barulho das coisas no chão. Mas esse barulho não foi suficiente pra me despertar e me tirar daquela realidade.
Eu não sei porque lutei tanto e por tantos anos. Na verdade sei sim, só é difícil de colocar em palavras tanta insegurança, tanto sentimento de inferioridade, tanto medo, tanta dependência emocional e financeira que não foram plantados por ele, mas por ele foram cultivados.
Um ano depois encontrei uma carta que ele escreveu pra ela terminando o que eles tinham. As palavras dele me doeram tanto porque era uma declaração de amor e ele citava um dia em que ele foi vê-la e ele descrevia como ela estava linda na janela e falava das flores que ele tinha dado a ela. Isso foi um soco em mim porque ele nunca tinha ne dado flores… Ele me deu o mínimo e eu aceitei.
Dez anos se passaram. Anos bons com nossas filhas criança. Mas nesse ano tudo mudou, ele mudou, nossa filha mais velha mudou, eu mudei. Ele me traiu novamente, eu li as mensagens e foram punhaladas no meu peito. Com ela, ele era paciente, compreensivo como nunca, nunca foi comigo! Dessa vez eu senti raiva, toda admiração e respeito acabaram. Foi aí que eu parei de lutar, mas a separação só veio quatro anos depois quando ele ameaçou agredir nossa filha mais velha. Nesse dia eu mandei ele sair de casa pra nunca mais voltar.
Foram 22 anos no total. Levei 22 anos pra conseguir me libertar não dele, mas de mim mesma, dos meus medos, das minhas inseguranças. Finalmente eu era uma mulher emocionalmente independente. Passei metade da minha vida com ele. O pior de tudo é a culpa que carrego por ter demorado tanto pra tomar uma atitude, pra proteger minhas filhas de verdade. Esse peso sempre será meu.
Por Roberta de Oliveira – @prof_robertadeoliveira





