A maternidade é um universo

Recentemente, a missão Artemis II sobrevoou a Lua, com uma mulher integrando a tripulação. Fiquei curiosa para saber se ela seria mãe. Eu estava em um daqueles momentos em que parece impossível conciliar a maternidade com qualquer profissão.

Em torno dessa viagem espacial, como nosso satélite natural sempre foi inspiração para tantas histórias, começaram a circular narrativas com mais imaginação do que informação.

Viralizaram postagens, afirmando que a tripulação teria descoberto que a Lua é colorida, com fotos incríveis para comprovar.

Eu amo eclipses e fases. De onde moro, assisto aos seus espetáculos. Mesmo gigantesca no horizonte, ela é sempre cinzenta, branca, no máximo amarelada e brilhante, nunca colorida.

Assim, fiquei fascinada com a possibilidade. Numa pesquisa breve, entretanto, a IA informou que a Lua colorida é fake. Além disso, que variações da sua composição mineral podem ser percebidas em tons de azul e alaranjado, mas para isso dependem de tratamento de imagem.

Por fim, concluiu que ela pode apresentar apenas diferenças sutis de cor, que não é totalmente sem cor, mas não é colorida.

A missão que deu origem à euforia em torno do assunto foi nomeada como Artemis II. Na mitologia grega, Artemis é a deusa da Lua, irmã gêmea de Apolo, que deu nome ao antigo Programa Lunar.

Apolo levou apenas homens. Artemis incluiu diversidade no programa. Levou a primeira astronauta mulher ao espaço, para uma missão lunar.

Christina Koch, a astronauta, tem um currículo impressionante, é considerada forte e adaptável, com resistência física e estabilidade emocional.

Não consegui descobrir se Christina tem filhos. De qualquer maneira, eu não pretendia discorrer sobre as dificuldades de uma mãe astronauta, como ela faria para exercer a maternidade lá do espaço, com quem revezaria as obrigações ou sobre a saudade que sentiria.

As informações técnicas que acessei seriam suficientes se eu quisesse dizer que ela é uma deusa: sobe montanhas nas horas vagas, atuou em ambientes extremos como a Antártida e já passou 328 dias seguidos no espaço.

Mas ela não é uma deusa. Também não é apenas um mito, como Artemis. Christina é humana e preparada para viver a transformação do imaginário em realidade.

Não esqueçamos, ela é humana! É incrível saber que humanas podem realizar aquilo que se creditava apenas às deusas. Entretanto, volto à minha questão inicial, ou seja, se uma mãe poderia ser astronauta, se poderia ir à Lua.

A figura materna, na Literatura, muitas vezes, é representada por personagens mitológicas ou santificadas, que destinam nutrição, vínculo, resiliência, acolhimento, sustentação e sacrifício aos filhos.

Por exemplo, guardadas as diferenças entre mito e religião, Deméter, Hera, Ísis, Iemanjá, Gaia e Virgem Maria personificam qualidades que por analogia são atribuídas a nós, simples mortais, no exercício da maternidade.

Nossa força é exaltada e nossas fragilidades não são admitidas. Então, é preciso que questionemos a idealização, bem como o papel de se sacrificar, atribuído e normalizado no que se refere às mães.

Para isso, podemos começar por problematizar que mãe seja sinônimo de deusa ou de guerreira, tão comum nos discursos do mês de maio. Podemos ser ambíguas e imperfeitas. Dor, ressentimento, instabilidade e sobrecarga emocional, fragilidade, descontrole e impotência são também características do maternar.

Da mesma forma, é urgente superar comparações que não consideram o direito das mulheres/mães ao exercício de sua humanidade, incluídas as instabilidades e as escolhas.

Na comparação, retirou-se esse viés da maternidade humana.  Ambiguidade e imperfeição não são atributos aceitos para a maternidade. São tratados como exceções, até mesmo aberrações.

Eu volto neste ponto às cores da Lua. Suas variações reais não são visíveis a olho nu. A maternidade real, em contrapartida, pode e deve ser vista a olho nu.

Acredito que as imagens da maternidade foram excessivamente filtradas, ao longo dos tempos, para difundir a ideia de que se trata de um lugar mágico, ao qual sempre compensa chegar.

Somos frutos de gerações que olharam para as mães através de fotos e poemas que capturaram seus ângulos sorridentes, os seios fartos, os braços fortes e as soluções para tudo.

Da mesma forma, somos filhas de uma história registrada para que todos os meninos quisessem ser astronautas e para que todas as meninas acreditassem que poderiam apenas admirar os astronautas.

Assim como aquela que optou por ser astronauta e circundar a Lua, uma mulher precisa saber que vai passar longos períodos na Antártida ou no Saara, se for mãe. Precisa saber que a maternagem é uma imensidão e que pode acabar sendo o universo de alguém.

Para viver essa opção ou esse destino, ela precisa olhar as fotos em preto e branco e espiar os ângulos desconhecidos. Estudar com quem já fez a viagem e, ainda assim, saber que as naves mudam, que cada tripulação é única e que seus instrumentos podem falhar.

Além disso, precisa estar informada de que a missão é longa, que a maternidade fragiliza e tira o tempo de apreciar as fases da Lua; que a mesma maternidade símbolo de força, é desestabilizadora.

Para uma astronauta e para uma mulher comum, na imensidão do universo, há tanto a explorar, muitos destinos e oportunidades. A maternidade é uma das possibilidades, que pode ser linda como avistar um astro celeste, bem de perto, no espaço, colorido ou não.

Estamos ensinando isso as nossas meninas? Ou continuamos mostrando as mesmas fotos, lendo a mesma história? Eu escolhi a maternidade e fiz muitas outras escolhas.  Nem imaginava ser astronauta. Como fui eu que escolhi, acredito que seria mãe mesmo que fosse astronauta.

Como mãe imperfeita de duas filhas, quis mostrar que sou apenas humana. Espero ter demonstrado que elas também podem exercer sua humanidade sem medo, que podem alterar suas rotas e conhecer muitos destinos. Que elas podem ser muitas, além de serem mães.

Elis Regina Bayer – Panambi/RS – @elis.escritora @elis_bayer

Revisão: Angélica Filha

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