A mãe com a mochila de abelha nas costas

Ponto de ônibus. Fim de tarde. A cidade está iluminada pela luz do crepúsculo e faz as pessoas se esquecerem, por alguns segundos, das dificuldades do dia. Só eu e uma outra mulher no ponto de ônibus. Ela segurava um bebê de uns dez, onze meses no colo; levava uma toalhinha na mão e carregava uma mochila de abelha nas costas. O bebê chorava muito. Ela vestia uma calça larga, talvez para esconder a barriga saliente, uma camiseta branca mal passada e um chinelo de dedo. O cabelo, preso em um coque, parecia não ser lavado há alguns dias. Já mencionei que ela usava uma mochila de abelha?

Foi a primeira vez que encontrei a maternidade frente a frente.

Não aquela das fotos “instagramáveis”, mas a maternidade real, muitas vezes oculta.

Eu, no auge do colágeno, usando um jeans justo e um salto de bloco estava ali só de passagem, esperando meu marido vir me buscar. Sentada com as pernas cruzadas, eu não tinha ideia do privilégio de usar brincos chamativos, escovar o cabelo e usar maquiagem.

Pensei em ajudar. Quem sabe trocar minha bolsa de couro marrom com a tal bolsa de abelha. Não sei bem o que eu faria com aquele item horroroso, mas ajudar é sempre importante para fazer as pazes com Deus.

Fiquei perdida nos meus julgamentos e continuei observando a cena triste: a criança havia aumentado o choro. Então peguei o celular para disfarçar.

Não sei por quanto tempo a criança continuou chorando. Imersa entre vários vídeos insignificantes nas redes sociais, eu matava o tempo (ou ele me matava). Sei que  em um momento  os berros cessaram. Vencida pela curiosidade, espiei para ver o que havia acontecido.

A mulher estava com a camiseta e o sutiã suspensos e amamentava a bebê que olhava firmemente para a mãe, serena. Era tanta pele com pele, suor com suor e amor transbordando, que meus julgamentos foram deixados de lado e passei a observar tudo com mais delicadeza.

Havia cansaço entre as duas, mas ele era superado pela sintonia, pela conexão.

Eu não sei explicar o que senti naquele momento.

A mulher então olhou para mim e perguntou:

– Você tem filhos?

– Não – respondi, ainda sem graça por ser pega a encarando.

– Você pretende amamentar quando tiver?

Fiquei em silêncio.

“Há escolha?” Pensei.

– Não sei se terei filhos.

– É uma pena.

A conversa se encerrou ali. Pouco depois, meu marido chegou. Entrei no carro atordoada com o pequeno diálogo. Enquanto meu marido acelerava o carro,  olhei para o ponto de ônibus uma última vez. A mãe não amamentava mais, brincava  de esconde e usando a toalhinha, a bebê gargalhava com seu sorriso banguela, possivelmente diluindo qualquer cansaço da mãe.

No fim, escorreu uma lágrima do meu olho.

Talvez, algum dia eu compre uma mochila de abelha.

Por Jéssica Franchini – @jessicafcfranchini

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal