Tem uma pergunta que volta e meia me atravessa:
por que é tão difícil?
Não digo da maternidade em si –
porque amar minhas filhas nunca foi o problema.
O que pesa é tudo que vem junto,
tudo que foi colocado em cima de mim sem que eu escolhesse carregar.
Ser mulher já vem com um conjunto de limites não ditos.
Ser mãe transforma esses limites em regra.
Ser mãe solo… escancara o quanto o mundo ainda espera que a gente dê conta de tudo – sozinha, calada e, de preferência, sorrindo.
Agora soma a isso o fato de ser uma mulher preta.
E então me diz:
era pra ser tão difícil assim?
Porque quando eu digo que quero mais –
mais espaço, mais tempo, mais mundo –
sempre tem um olhar atravessado.
Sempre tem uma dúvida silenciosa no ar, como se liberdade, pra mim, fosse exagero.
Como se eu já tivesse “o suficiente”.
Mas quem decidiu o que é suficiente pra mim?
Quem decidiu que meu desejo precisa caber no possível,
enquanto o possível já foi desenhado tão pequeno?
Existe uma revolta leve, mas constante, dentro de mim.
Não daquelas que gritam o tempo todo,
mas daquelas que sustentam o passo firme.
É ela que me faz não aceitar o cansaço como destino.
É ela que me faz questionar por que descansar ainda parece privilégio.
É ela que me faz querer atravessar fronteiras – físicas, simbólicas, internas.
Porque não, não é só sobre mim.
É sobre o que minhas filhas vão enxergar quando olharem pra minha vida.
Elas vão ver uma mulher que tentou dar conta de tudo até desaparecer?
Ou uma mulher que, mesmo com medo, mesmo cansada, insistiu em existir inteira?
Eu não tenho todas as respostas.
Tem dias em que eu também duvido.
Tem dias em que a exaustão fala mais alto que qualquer discurso.
Mas tem uma coisa que eu sei:
não é errado querer viver para além da sobrevivência.
Não é errado desejar leveza.
Não é errado querer o mundo, mesmo quando disseram que ele não foi feito pra gente.
Se você está me lendo e se reconhece em alguma parte disso,
saiba: eu te vejo.
Eu sei do peso que você carrega sem plateia.
Sei das escolhas que ninguém aplaude.
Sei do quanto você se refaz, todos os dias, mesmo quando parece não dar.
E mesmo assim, você segue.
Que a gente não precise mais se diminuir pra caber.
Que a gente possa, aos poucos, ir abrindo espaço –
na marra, no cuidado, na coragem.
E quando cansar – porque cansa –
que a gente também encontre lugar pra repousar, sem culpa.
Você não está sozinha.
A sua inquietude faz sentido.
A sua vontade de mais faz sentido.
Você faz sentido.
Por Julianna Afonso – @julianna.afonso





