A minha memória antes e depois da maternidade

Antes de ser mãe, eu tinha uma memória absurdamente boa. Lembrava de tudo: senhas, aniversários, letra de música que ouvi uma vez em 2003, nome de personagem secundário de livro que li na adolescência, endereço de lugar que fui uma vez em 2011. Era quase um superpoder. As pessoas me ligavam para confirmar informações. Eu era a referência. A enciclopédia humana do grupo.

E eu ia te dar um exemplo concreto agora mas

Espera.

Tá.

Enfim, era isso. Funcionava.

E eu queria te explicar exatamente como a maternidade mudou isso, porque tem uma explicação científica fascinante sobre o que acontece com o cérebro quando você se torna mãe. Tem até um nome bonito, começa com “M”… Eu sabia esse nome até semana passada. Tenho certeza.

A mudança foi gradual. Tipo aquele amigo que vai embora da festa sem avisar e você só nota quando já faz tempo.

Um dia eu estava lúcida, funcional, chegando em lugares no horário com as coisas que precisava trazer. No outro eu estava no supermercado sem carrinho, sem lista e sem nenhuma memória do motivo pelo qual eu tinha ido até lá.

Comprei iogurte.

Não era o iogurte que eu precisava.

Hoje eu entro em cômodos com uma missão muito clara e, quando chego lá, fico parada olhando para a parede como se a parede fosse colaborar.

A parede nunca colabora.

Onde eu estava?

Ah. A memória.

Hoje eu vivo de lembretes. Tenho notas no celular escritas por mim, para mim, que eu não entendo. “Ligar, perguntar sobre o negócio.” Que negócio? Com quem? Quando isso virou importante?

Às vezes tiro fotos achando que vou lembrar depois. Não lembro. E tem conversas de WhatsApp onde eu estava claramente no meio de uma decisão importante e simplesmente desapareci.

A outra pessoa deve ter seguido a vida.

E, ao mesmo tempo, tem coisas que não saem mais.

Eu sei exatamente qual é o choro da minha filha quando é fome, quando é sono e quando é só frustração pura sem causa identificável. Eu lembro qual foi a única fruta que ela aceitou comer na semana em que tudo era “não”. Eu sei onde está o coelhinho preferido dela sem precisar acender a luz.

Eu não sei onde estão as minhas chaves.

Mas sei onde está o coelhinho.

Não foi uma decisão. Não teve momento.

Só aconteceu.

Tem dias em que isso me irrita. Eu sinto falta de ser aquela pessoa rápida, organizada, que confiava no próprio cérebro. Tem dias em que eu começo três coisas e termino nenhuma e fico com a sensação de que estou sempre um pouco atrasada de mim mesma.

Mas aí minha filha me chama de outro cômodo, e eu sei, sem pensar, o que ela quer.

Nem passa por palavras.

Só vai.

O que ficou ocupa muito espaço.

E a parte mais engraçada?

Eu sentei aqui hoje com uma conclusão já planejada na cabeça. Era boa. Tinha uma virada no final que ia fazer tudo fazer sentido.

Mas aí comecei a escrever.

E agora estou aqui.

Você entendeu.

Por Jessica Gabrielzyk – @jessicagabrielzyk

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