Eu tenho muita simpatia por um lugar chamado: Fundo do poço.
Começo este texto de lá.
Pode ser também o fundo do mar, como a localização do Titanic, ou as profundezas do inferno. No fim, muda o cenário, não a sensação.
Pra começar: na minha vida, tudo vira pauta e correlação. Sou sintomática, neurótica. Vivo e me comporto como me sinto.
Neste momento em que escrevo, estou no CAPS AD.
Pra quem não conhece, é o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.
É aqui que eu ouço algumas das histórias mais profundas de fundo do poço.
Sombras. Tragédias. Desumanidades. Invisibilidade.
E, ao mesmo tempo em que não é sobre mim, é um pouco. Sempre é.
Tem dias em que eu me pergunto se eu deveria estar em tratamento aqui, e não trabalhando.
Mas, enquanto posso, eu ajudo.
E, silenciosamente, sou ajudada também, mesmo que eles não saibam.
Percebi que quem já esteve nessas profundezas não volta igual.
Volta diferente, para o bem ou para o mal.
Melhor. Pior.
Ou não volta.
A vergonha ocupa espaços inteiros nessas almas.
A culpa. O remorso. Às vezes, a manipulação. Nas mulheres a culpa é o padrão.
Mas, mais do que tudo isso, o que predomina é a fragilidade.
Gerações inteiras que tentaram não repetir histórias…
e, ainda assim, tropeçaram nelas.
Hoje eu ouvi:
“Perdoar o que fizeram comigo me ajudou a me perdoar pelo que fiz com meus filhos, nem preciso mais do diazepam.”
Eu gostei dessa frase.
Ela tem um jeito de cura.
Um jeito de leveza.
Um jeito de liberdade.
Mas,
Na mesma tarde, ouvi também:
“Não consigo dormir. Meu filho morreu há um ano, com cinco tiros. Fico pensando nos últimos momentos dele… e no quanto pode ter sido culpa minha, por eu ter bebido a infância inteira dele.”
A culpa também mata.
Não de uma vez, aos poucos.
Envenena. Corrói. Esvazia.
Ela já nem se lembrava de tudo que veio antes.
Do quanto foi humilhada ao ter um filho numa relação casual, na década de 70.
Dos olhares. Da evitação.
Mas, quando puxou, veio:
“As vizinhas não deixavam minhas amigas se aproximarem.”
“O pai da criança queria que eu abortasse.”
“Eu apanhava todo dia.”
São muitas camadas.
Sempre são. E a culpa não se divide, digo a responsabilidade, já que historicamente se “der ruim”, são as mães que carregam a fantasia da bruxa má.
Ela não queria ser assim com os filhos.
Mas foi.
Permissiva.
Alcoolista.
Errou tentando acertar, o que, talvez, seja uma das formas mais humanas de erro.
Permissiva.
Essa palavra não é minha.
É de um calhamaço de folhas sigilosas.
De uma senhora de cabelos brancos e olhar perdido, que se culpa por coisas que nunca dependeram só dela.
Tem dias em que a dor me corrói.
Mas eu sigo.
Porque nada me ensinaria mais sobre a vida do que o fundo do poço, que eu, veja só, achava que conhecia. O fundo do poço da mulher mãe é mais fundo e a escalada é com as mãos nuas, arranhadas, machucadas e pesadas por acharem que os filhos sempre só da mãe.
Por Viviane Valemis – @dravalemis





