A roseira naquele jardim nunca mais deu flor. Outro dia umas folhinhas apareceram, eu achei que viria um botão, mas nada, nunca mais vimos a beleza das suas pétalas salmão. Pode ser a proximidade do inverno, um parasita que se instalou, ou falta de conversa, pode ser tanta coisa que eu nem sei. São minirrosas, geralmente com dois ou três botões em cada galho que, quando florescem, exibem umas 20 pétalas mais ou menos por flor, protegendo a parte central tão importante no ciclo de uma espécie inteira.
É tão interessante aquele botãozinho miudinho que já carrega tanta exuberância, tanta cor e beleza ali dentro, tudo apertadinho, só esperando o momento de desabrochar e continuar sua jornada na natureza. Impossível, pra uma poeta como eu, não se misturar com a flor e não ver quanta poesia há neste gesto tão simples, tão (in)certo e tão único de se abrir pra vida. Cada flor tem suas próprias camadas para desprender, umas mais, outras menos, e isso é tão familiar…
Nós mulheres somos ensinadas desde cedo a nos movimentar com muito cuidado, ou medo, como que nos resguardando dos perigos a que seremos expostas. É muito estranha essa naturalização, tão presente ainda nos dias de hoje, da falta de liberdade para tornar-se mulher em nossa sociedade. Ouvimos tantos não sente assim, não use essa roupa, não diga isso, fale baixo, vá por ali, tenha paciência, não provoque, etc. e tal, que cada uma de nós carrega um baú bem pesado de restrições e punições das mais variadas formas. Fazemos muito esforço para existir, porque precisamos nos desfazer de todo esse peso, se quisermos viver com autonomia, saúde e alguma segurança. Com o tempo, percebemos que seguir todas aquelas restrições não nos dá garantia de proteção, ao contrário, pode nos transformar em alvos mais fáceis da violência, já que elas arrancam os nossos espinhos e nos deixam ainda mais expostas à aproximação dos parasitas. Há muito do que se despetalar, e outro tanto a lutar. No pior dos climas, mesmo com seca, ventania, chuva extrema, sol que não abre, umidade que mofa, a gente teima em b(r)otar a cara no mundo. Aos trancos e barrancos, assim como a florzinha que desapareceu do jardim, nosso desabrochar,, que poderia e deveria ser livre, leve e lindo, representa um sacrifício diário. E isso, que já é terrível por si só, piora.
É quando aquele medo antigo se confirma, quando alguém decide nos arrancar do nosso jardim, desmembrar nosso corpo, nos separar à força da nossa natureza. Um alguém que nos desalma, nos coloca num vaso só para si, alguém que está disposto a tudo para ter a posse da nossa beleza e vitalidade, restringindo nosso espaço até que a gente morra. Ou um alguém que nos quer servindo-lhe eternamente como objeto útil, desgastando a nossa energia para ornamentar, lucrar e fazer o que quiser da nossa vida. É tanta crueldade que a gente até pensa no porquê de florescer.
Não seria melhor ser só um botão e ficar ali quietinha, protegida para sempre dos olhares miseráveis dessa truculência toda? Secar antes mesmo de me abrir pro mundo? Talvez, eu escapasse da estatística. Eu ainda estaria aqui com as minhas raízes, com as minhas outras duas companheiras de botão e nossas folhinhas amigas. Conseguiria me aquecer no calor do Sol, mesmo sem ver a sua luz; perceber a brisa suave dos ventos, mesmo sem tê-los tocando as minhas pétalas; ouvir o canto dos pássaros, ainda que um pouco abafado, ou sentir o cheiro de um beija-flor, mesmo que não pudesse sorvê-lo em mim. Tudo assim à distância, empobrecido, pela metade. Por quanto tempo eu sobreviveria? Não sei, mas triste seria, e logo nem uma florzinha pra contar essa história existiria.
As minirrosas, mesmo pequenas e aparentemente frágeis, carregam a força da vida dentro de si. Foi contemplando o passado que aprendi sobre o além das camadas, sobre quanta profundidade há em cada desprender. As escolhas, as coragens, os amores, as vontades, o suor, a dança, o choro, a esperança, o tropeço, a dor, o riso, a oração, o sim e o não, todo caminho até aqui me mostra de quantas camadas tive que me soltar para viver. A roseira naquele jardim nunca mais deu flor e agora eu suspeito o porquê. Ela secou pelo abandono de quem podia e devia cuidá-la, de quem a deixou sozinha pra se defender no temporal. Secou porque não tinha para onde ir, porque não sabia como, nem podia sair dali. São tantas interrupções em nossas vidas, tantas barreiras a superar sendo mulher… Não é fácil, não é nada fácil.
Eu conheço a dor da florzinha, eu posso sentir o seu perfume se esvaindo, a secura que lhe invadiu partindo tudo por dentro, rasgando e doendo. Eu lamento por ela, e pelas margaridas, pelas azaleias, pelas graxeiras, orquídeas, tulipas, bromélias, lavandas. Eu lamento pelos crisântemos, pelos cravos, lírios, girassóis e tantas outras flores, eu choro por todas elas. Eu podia ser aquela flor, qualquer uma delas eu seria, porque assim como todas, eu também quero continuar VIVA. Por mim, por elas e pelas outras, eu não aceitarei ser interrompida. Não há espaço para a dúvida, não há tempo para o medo. Não estou a mercê do desejo alheio e decidi não sucumbir às contingências. Então, por favor, escrevam nas cartolinas, anunciem na televisão, postem nas redes (prefiro uma canção), mas gritem aos quatro cantos que eu decido como, quando e onde quero estar. Avisem a esses aí que querem me arrancar do meu lugar, desmembrar meu corpo e me desalmar, que eles não vão me acuar.
Por Madalena Magalhães – @madamagalhaes_2025





