Um relato sobre ser mulher em um mundo que ainda oferece riscos à existência feminina — e sobre como esse cenário ressignifica o Mês da Mulher como um período de luta, resistência e cobrança por ações efetivas.
Ser mulher sempre significou carregar múltiplas versões de mim em uma mesma caminhada. Sou profissional, esposa, irmã, amiga e, principalmente, mãe — mãe de um menino e de uma menina. E essa dupla maternidade traz uma responsabilidade emocional ainda mais profunda: criar uma menina que cresça com coragem para ocupar os espaços que quiser, e um menino que reconheça, respeite e fortaleça esses mesmos espaços.
Todos os dias, percebo que meu papel social não se limita ao que faço, mas, sobretudo, ao que represento. Meu corpo, minhas decisões, minha presença e até o meu silêncio podem ser atos políticos. Ser mulher, apesar de toda a beleza e potência que isso carrega, ainda é perigoso.
Perigoso quando damos nossa opinião.
Perigoso quando ousamos existir fora do que esperam de nós.
Perigoso, às vezes, simplesmente por termos uma voz.
E é justamente por isso que falar sobre protagonismo feminino se torna cada vez mais urgente.
Entre o medo e a coragem: o poder de existir plenamente
Aprendi que o protagonismo feminino não é sobre perfeição — é sobre presença. É sobre assumir quem somos, com todas as nossas camadas, e ainda assim seguir adiante, mesmo quando o mundo insiste em tentar nos silenciar.
Como profissional, já vivi situações em que precisei reafirmar meu espaço inúmeras vezes. Como mulher, já senti o peso de expectativas que nunca foram desenhadas para mim, mas que tentaram me encaixar mesmo assim. Como mãe, vivo o desafio constante de equilibrar o exemplo que ofereço com a proteção cada vez mais necessária em todos os ambientes.
E, ao mesmo tempo, percebo que essa trajetória é compartilhada por milhões de outras mulheres que, dia após dia, constroem suas histórias em ambientes que nem sempre as acolhem. Somos protagonistas não porque o mundo nos deu esse papel, mas porque nós o tomamos — e seguimos tomando — com coragem.
O Mês da Mulher não é só celebração: é ato contínuo de resistência
A cada ano, sinto que o 8 de março deixa de ser apenas uma data comemorativa e se transforma em um símbolo de luta. Não porque deixamos de ter conquistas a celebrar, mas porque ainda temos muito a reivindicar.
O Mês da Mulher tem ganhado um tom de resistência cada vez mais forte porque, infelizmente, os desafios permanecem — e, em muitos casos, se intensificam. Ainda discutimos igualdade salarial, ainda lutamos contra a violência de gênero, ainda pedimos respeito básico, ainda precisamos provar nosso valor repetidas vezes.
O que isso diz sobre a sociedade que queremos construir?
E, mais ainda, sobre o papel de cada pessoa nesse processo?
Não basta celebrar: é preciso se responsabilizar
Se existe algo que aprendi sendo mulher — e mãe de um menino e de uma menina — é que mudanças reais começam na consciência individual. Mulheres têm feito sua parte há gerações: resistindo, educando, acolhendo, ocupando espaços, derrubando barreiras. Mas isso não pode continuar sendo uma luta unilateral.
Para que o respeito não saia de pauta, todos precisam participar.
Homens, especialmente, precisam se comprometer não apenas com palavras, mas com ações concretas:
- Combatendo comportamentos machistas, especialmente entre outros homens;
- Defendendo o direito das mulheres à fala, à presença e à segurança;
- Compartilhando responsabilidades dentro e fora de casa;
- Reconhecendo seus privilégios e se colocando como aliados reais.
Celebrar o Mês da Mulher é importante, mas não é suficiente.
É preciso cobrar mudanças, transformar hábitos, questionar estruturas e ampliar vozes — não apenas em março, mas todos os dias.
Por Beatriz Rigorfi Nascimento – @beatriz.rig
Revisão: Angélica Filha





