Poesia – Canções para depois do silêncio

cartas para depois do silencio

Canções para depois do silêncio
Começo uma canção
para acordar os que ainda dormem.
Pois hoje
um novo corpo de mulher
apareceu em meio à praça pública.
Fio interrompido.
Entre sangue e silêncio.
Se era santa.
Se era puta.
Que tamanho tinha sua saia.
Qual a profundidade de seu decote.
E as mesmas bocas cerradas
Sob a verdade que se impõe a todas nós.
São muitos os corpos que tombam.
Um após o outro.
E eu sou apenas uma mulher.
Cujo corpo é fruto de fragmentos de silêncio e verdades inteiras que guardo dentro do
peito;
Neste subjetivo espaço para onde convergem violências diárias, interdições diversas e
resistências necessárias.
E eu? Sobrevivo, pés firmemente plantados sobre a linha de apoio do equilibrista,
navegando passo a passo em direção ao desequilíbrio, para júbilo da plateia.
Atravesso todos os dias sangrando a intervalos regulares, silenciosamente, enquanto sinto
dobrar, nas costas cansadas, o peso cotidiano de parir o mundo.
Deste corpo, feito de tantas imperfeições, marcado por tantas falhas, pulsa meu olhar.
Em carne viva.
Alvo e bandeira.
Plural.
Uma, duas. Muitas vidas femininas.
Reflexo de muitas mortes.
Somos sempre muitas.
Chão.
Dores.
Lágrimas.
Poesia.
Sou todas as que vieram antes.
As que morrem e as que ainda irão nascer.

Aas que caminharam mais longe,
de passo mais largo
e mais duro que o meu.
Somos feitas de tempo.
Suor e sangue,
Cansaço.
Raiva e indignação.
Mas, principalmente,
amor.
Somos espelho.
Inúmeras que, ponto a ponto,
dão-se as mãos.
Quando uma de nós tomba,
é no nosso corpo
que a dor rasga.
E enquanto houver silêncio e covardia,
enquanto corpos de homens não se doerem como os nossos
a cada uma de nós que cai, minha voz seguirá
ainda mais alta e mais combativa.
Não há tempo
para calar.
Denunciemos, principalmente,o silêncio
dos que deveriam lutar ao nosso lado.
Ainda assim, seguimos, tendo a incerteza da vida como companhia diária,
e a voz geral de que corpos e identidades femininas são descartáveis.
Ainda assim, prosseguirei.
Prosseguiremos.
Por cada uma que me protege e por quem marcha na linha de frente,
por corpos que tombam antes do meu.
E só peço que o medo não paralise minhas pernas,
nem o cansaço enfraqueça minha voz.
Carrego o nome de todas que seguem nas minhas veias:
tantas Marias,
Helenas,
Vitórias,
Carmelas,
Tainaras,
Solanges,
e tantas

sem nome,
sem rosto
e sem voz.
Identidade feminina
marcada a ferro,
sem uma única
definição possível.
Mães.
Meninas.
Mulheres.
Avós.
Alvos.
4200 vezes por ano
4 vezes por dia.
Em todas as praças.
Em cada esquina,
fogueiras de diversos formatos se sucedem.
Ontem e hoje, o mesmo risco.
E a mesma morte que morremos juntas,
diante de olhos arregalados
e bocas silenciosas.
Aos que nos pedem calma,
devolvemos luta.
Então,
que seja a vida
a nossa resistência:
feminina,
feminista,
mulheril.
Na alegria
e na luta,
sigamos.

Por Tati Mendes – @tatimendesphotografia

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