Poesia – Asas quebradas

poesia asas quebradas

Quem decide é o seu pai!
Vou ver com meu marido e aí eu lhe aviso.
Lá em casa não entra peixe, meu esposo detesta.

O vestido é lindo mesmo, mas o João não gosta de vermelho.
Cortar o cabelo curto? Bem que eu queria,
mas se fizer isso acho que meu marido se separa de mim.

Quase que fui morar na Argentina por conta de uma promoção,
pena que só eu falo espanhol lá em casa.

Happy hour, hoje? Não vai dar não.
É dia de futebol do Beto,
eu tenho que ficar com as crianças.

Por que que eu não visito mais minha irmã que mora longe?
Meu marido não gosta de viajar.

Morro de vontade de comer contra coxa,
mas num frango só vem duas.
Da panela elas sempre correm para o prato do Sérgio,
quase nem vejo.

Não leio romance mais.
Flávio acha que devo ler só livros educativos.

Por que a minha barriga é branca?
Ah, acho que é falta de sol.
Uma mãe de família não deve usar biquini.
O Edson acha assim.

O que eu acho da política atual? Acho nada.
Ronaldo acha melhor eu não dar palpite em assunto de homem.

Só vou em médica mulher. É mais fácil, posso ir sozinha.
Walter é muito ocupado. Fica difícil me acompanhar nas consultas.

Tatuagem? Não tenho não.
Pensei em fazer uma flor na perna, mas quase que a casa caiu.
Pedro falou que tatuagem era coisa de marinheiro.
Deixei de lado para não criar caso.

Adorava mesmo era tirar fotos.
Minhas, de todo mundo e de todo lugar.
Isso foi coisa de adolescente.
Agora Túlio acha mulher fotógrafa e que toca violão entrona.
Talvez seja mesmo.
Doei os dois. Não quero encrenca em casa.

Vou ver se no mês que vem sobra um dinheiro do Antônio.
Ele me dar para eu fazer as unhas e cortar o cabelo.
Pintar?
Não, meus cabelos naturais são do jeito que ele gosta.
Mas se não sobrar, não vou não.

Mário quer que eu aprenda tricô.
Já tentei várias vezes.
Simplesmente não tenho jeito,
mas tenho que fazer algum trabalho manual.
É melhor do que ficar fofocando com a vizinha ou vendo novela,
é o que o Mário sempre diz.

Se ele chega tarde? Às vezes. Mas eu não falo nada.
Ele precisa se divertir um pouco, jogar um baralho, tomar uma cervejinha.
O serviço dele é muito pior do que o meu.
E afinal de contas ninguém gosta de perder a liberdade
por conta de um casamento.
Eu também sou assim, compreendo totalmente.

Mas o William é muito bom companheiro,
praticamente me deixa fazer tudo o que eu quero.
Não vou nunca prender ele numa gaiola. Nunca!

“O machismo é o medo do homem das mulheres sem medo” – Eduardo Galeano

Por Lucimar Zanzoni – @donaluzanzoni

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