Sol de inverno

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Era outono novamente e me lembrei do primeiro dia em que lavei suas roupinhas e as coloquei no varal para secar. Aquele sol de junho, um sol quente em meio a dias frios. Todas aquelas roupinhas… tantas ganhadas, já que eu e seu pai mesmo tínhamos comprado apenas duas àquela altura.

Eu imaginava você vestindo todas elas. Me enchia de sonhos enquanto eu tinha um certo tempo e uma certa calma para encher máquinas e máquinas de pequenas roupas. Elas ocupavam pouco espaço no cesto, no varal, na cômoda recém-montada. Ocupavam grande espaço em meus sonhos sobre você.

Mas, para dizer bem a verdade, não me lembro bem o que eu imaginava sobre você na época. Sei que era tudo fantasia bonita. Eu gestava você no meu corpo e nas minhas ideias. Foi importante lembrar disso naquele momento em que estendia suas roupas no varal, em uma noite quente de verão, enquanto você dormia. Já se passaram alguns meses, algumas estações do ano, e a fantasia de quem você seria foi substituída pela abrupta realidade de quem você é.

Você chegou em uma manhã fria. Um sol de inverno se anunciava no céu, mas pouco esquentava os corpos que andavam lá fora, recebendo um vento cortante e frio. Esse sol dissipava o sereno da madrugada e inaugurava um novo dia. Uma nova dimensão em minha vida.

Ainda penso se o nosso encontro foi como uma mudança de estação. Eu esperava, talvez, que viesse como uma virada em minha vida. Porém, de fato, se pareceu mais com uma cena descrita em meu livro preferido: um sol tímido, recoberto por nuvens finas, que se dissipam lentamente. Nosso encontro foi acontecendo.

Eu não conhecia quem eu segurava nos braços e precisava tanto de mim. Você não precisava de roupas até então. Eu não sabia qual roupa vestir após a sua chegada, nada mais cabia em mim e eu não sabia o que caberia em você.

Definitivamente não era quem eu idealizava, você não coube em todas aquelas roupinhas que lavei. Algumas, inclusive, foram repassadas sem nem sequer eu ter tempo de vesti-las uma única vez. Mas você estava ali, para além e apesar da minha imaginação.

É engraçado pensar que agora o meu certo tempo e a minha certa calma são outros. São raros eu posso dizer. Tento administrar tempo e encontrar calma, após meses de sentimentos atravessados, atravancados, alavancados.

Ao menos eu tenho uma certeza: agora eu já sei quais roupas você vai usar, quais não vai, quais são confortáveis e quais não são. Sei até as que você vai usar pouco ou muito. Posso escolher as roupas sabendo quem vai usá-las. Sei também que essa minha escolha é limitada, poderei fazê-la por um tempo ainda, até que você passe a escolher por sua autonomia e vontade.

Essas roupas de agora – que são ora de verão, ora de inverno, ora de uma ‘meia estação’ -, são roupas que não cabem mais na ideia de quem você era, mas cabem na realidade de quem você é. E isso é tão bonito. Agora, a cada mês, eu conheço mais e mais quem você é de verdade. O incrível é que não são as roupas que nos surpreendem, é uma vida toda pela frente do que posso conhecer sobre você e sobre mim mesma.

Quando nasce um filho, não nasce uma mãe necessariamente. Eu, pelo menos, não nasci como mãe. Ainda penso, entre tarefas cotidianas e sentimentos complexos, como esse papel se encontra em minha vida: “Será? Eu? Uma mãe?”

Mas, hoje, quando você saiu para dar uma volta na pracinha com o pai, era novamente um sol de inverno. Eu, inesperadamente, adverti: “leva um casaquinho”.

Claudia Simone Brenha Simoes / @simone_costurando_historias

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