O amor não é mágico

A heartwarming image of a mother and baby sharing a joyful, affectionate moment indoors.

Estamos aqui, faltam 5 dias para seu mesversário de 7 meses. Tenho tentado aprender como fazer você dormir no berço sem precisar ser ninado. Eu amo te ninar e dói reconhecer que o amor não é mágico. Porque me lembro de ouvir que o amor é maior que tudo, que o amor cura feridas. Que o amor supera qualquer coisa.

Quantas vezes me pergunto: Será que meu amor é fraco? Será que não é amor?

Porque eu amo tanto te ninar, mas ao mesmo tempo, tantas vezes sinto estafa e cansaço. Às vezes queria poder descansar enquanto você dorme, mas como agora, estou aqui, de pé, com você no sling. E ai de mim se eu tentar me sentar.

Hoje você não quis ficar por motivo algum no berço…. Está tão frio. Se eu pudesse, confesso, também ficaria dormindo no colo de alguém. São quase sete meses navegando pela experiência mais surpreendente, feliz e dolorida que já imaginei. Eu tenho certeza de que tenho por você o amor mais verdadeiro que existe. É o mesmo amor que sinto pela vida. Viver é complexo e só agora, sendo mãe, descobri que aquela pedagoga que tanto tinha de experiência e teorias pouco pode aproveitar de tudo.

Ontem, numa roda de conversa sobre desenvolvimento infantil, uma mulher grávida de seu terceiro filho disse: “Não existe filho único. Toda criança é única.” Ela contava como os dois primeiros filhos foram profundamente diferentes entre si e como foi frustrante descobrir que a experiência acumulada não simplificava necessariamente a chegada de um novo bebê. É… de certo modo percebo que meus anos de sala de aula na educação infantil certamente me prepararam para isso: era preciso muita observação, muito silêncio, e muita disposição para conhecer realmente cada criança, pois na verdade cada uma é um universo todo em si. Era preciso um esforço tremendo para encontrar tempo para dar conta de olhar a singularidade de cada uma em meio ao coletivo.

Com você, meu filho, tenho relembrado esse aprendizado. Nenhuma teoria, nenhuma abordagem, nenhum treinamento, nada é capaz de acolher qualquer ser humano em sua inteireza. Somos só nós dois no correr das 44 horas semanais em que seu pai está trabalhando fora, mas, em tempos de redes sociais, às vezes parece ter uma multidão de gente, de especialistas a comentaristas, querendo protagonismo em nossa maternidade.

É tão trabalhoso tornar-se mãe e, além de tudo, ter que construir paredes firmes de autonomia, silêncio e coragem para poder, a cada dia, a cada fase, observar, interagir e descobrir quem é você. Quem é você, para além das especialistas, das cartilhas, e dos “tem que”? Até porque, quando um bebê apresenta qualquer atraso em relação à norma, a sua pequenina existência deixa de ser a de um bebê fofo em desenvolvimento e passa a ser motivo de constante avaliação, estimulação, urgência. Nosso tempo é bastante viciado em olhar e valorizar mais a falta do que a potência. Talvez por isso seja tão difícil simplesmente esperar. Parece que ninguém suporta a ideia de um bebê ter seu próprio tempo… Parece errado eu acreditar em você, meu pequenino.

Baita trabalho este, defender a ti, a nós e nossas escolhas. Todo puerpério já é cansativo, mas nós, mães de bebês que caminham em ritmos diferentes dos esperados, somos tão corajosas ao escolher não nos atropelar e seguir caminhando, com calma, contemplação e consciência…

O amor não é mágico.

A não ser o amor romântico. Inventado para isso, para nos silenciar e nos obrigar a performar — afinal, “o amor de mãe supera tudo”. Mas sabe, posso afirmar: o amor é potência. Potência que se manifesta através de apoio, de cuidado com a mãe (a partir de um companheiro atento, acolhedor e participativo), até a tão famosa (e misteriosa) rede de apoio (afetiva e, principalmente efetiva). Tal potência também se revela ao nos emanciparmos das tantas informações e fazermos da nossa própria experiência-relação o fenômeno fonte de conhecimento. Raridade.

Mas seguimos apesar de. Com o privilégio de ter um pai extremamente participativo, amoroso e humilde. Um homem que, além de assumir o trabalho doméstico — mesmo saindo às 7h30 e chegando às 18h30 —, tem assumido sua dificuldade em nos compreender e aprendido o valor da escuta. Que valoriza esse trabalho historicamente desvalorizado, invisibilizado, e me faz sentir amada mesmo sem nenhuma performance do amor romântico — a casa não está arrumada, quase não tem comida fresca, tenho reclamado mais do que reclamei em toda vida —, ouço que sou linda e que estou maravilhosa, mesmo sem pentear o cabelo e com os números da balança aumentando a cada mesversário.

Faço questão desse registro pois não sei como serão os tempos quando você ler esta carta, pessoa já adulta. Espero que soe como algo óbvio que um pai se comporte assim e desejo que, se você escolher ser pai um dia, as coisas sejam bem diferentes. Mas a verdade é que seu pai é a exceção à regra, ainda que pareça o mínimo, dos que conheço, está entre o máximo que costumam fazer…

Seguimos. Firme como prego na areia? Como rochedo inabalável? Depende.

A cada momento, uma. Sigo múltipla. Mas com muito amor. Amor real, que não anula o medo, o cansaço, a angústia, os momentos que nos perguntamos sobre arrependimento. O amor potente que, quando encontra seu olhar sereno, quando encontra qualquer gesto corporal que nos comunica sobre você, quando recebe seu sorriso, aí sim, acontece a mágica: apesar da solidão, do cansaço, apesar de tudo, o amor potente continua, me inunda, me cura e cresce! Talvez a magia nunca tenha estado no amor. Talvez ela esteja nos bebês. Porque a cada encontro íntimo, manifesto neste sorriso, no levantar de sobrancelhas ou na respiração profunda enquanto dorme em nosso corpo cansado, magicamente nos faz sentir ainda mais amor, alegria, agradecimento.

Sete meses. Para nós, e para todas as mamães, parabéns pela (re)existência.

Autora: Janaina Christovam

Revisão: Kátia Dias

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal