Operação Chacina

Detailed view of a police car's red siren light shining at night.

O morro acordou com o barulho de tiros. A polícia ia subir: era dia de operação. Em dias assim, sair de casa é perigoso, mas João não tem opção. Trabalha de entregador na farmácia e seu trabalho começa às seis da manhã. Ele se arruma e vai até o quarto da mãe para se despedir. Ela já está ajoelhada, orando. João sabe que a maior parte dos pedidos que sua mãe faz nesses dias é para proteger Wallace, seu meio-irmão, que trabalha no tráfico como fogueteiro. Compreende que ela ora por ele também, mas entende que Wallace hoje precisa muito mais de proteção.

Sua mãe lhe dá a bênção, beija sua cabeça e fala para ele ir e voltar com Deus.

João pega a moto e desce o morro. Apesar das barricadas e do tiroteio, ele consegue chegar ileso ao trabalho. Agora é torcer para que, na volta para casa, as coisas já estejam mais tranquilas.

É dia de operação e Santos nem conseguiu dormir. Em dias assim, ele precisa da adrenalina e do foco no máximo. Pega a quinta xícara de café, coloca o colete, recebe uma mensagem no celular e vê que é da esposa: uma foto do bebê com a frase “Acaba com eles, papai!”. Ele sorri, instintivamente beija seu crucifixo e pede a Deus proteção. Tudo que ele quer é que essa operação acabe logo, para que possa voltar para sua família.

Responde à mensagem: “Papai vai pegar os caras maus e volta pra você. Te amo ❤️”.

Pega a arma e entra no camburão. Eles vão subir.

Dona Judith acordou com o barulho de porta batendo. Levantou e viu que era Wallace, que se preparava para sair. Quando viu a mãe acordada, falou que era pra ela ir dormir, ele precisava ir,  iam invadir o morro. Ela se ajoelhou e suplicou a fim de que ele não fosse. Ele disse que, se não fosse, aí sim já era um homem morto. O dever o chamava, e ele ia voltar, ele sempre voltava. “Vaso ruim não quebra”, brincava.

Dona Judith, vencida, foi até ele, deu-lhe um beijo na testa e falou que iria orar por ele. Entregou um crucifixo e pediu para que o colocasse no pescoço, dizendo que Deus o protegeria. Wallace colocou, para não contrariar a mãe, mas já não acreditava em Deus.

Dona Judith não voltou a dormir. Ajoelhou-se com as mãos encostadas na cama e começou sua vigília. Só iria parar de orar quando seus dois filhos estivessem salvos, de volta em casa. Sabia que João já, já acordaria também e iria para o trabalho na farmácia. Orava por João também, mas, naquele dia, suas preces eram por Wallace — ele precisava mais de Deus naquele momento.

Deu um beijo em João, pediu para que fosse e voltasse com Deus. Não estava tão preocupada: sabia que João voltaria.

E ainda tinha a menina. Hoje, com certeza, ela não teria escola. Acordou a pequena e levou-a para o quarto. Forrou os lençóis no chão e a deixou ali, dormindo embaixo da cama — era o lugar mais seguro da casa.

A polícia cercou o morro. Alguns subiram pela rua principal com tanques para passar pelas barricadas; a unidade de Santos subiu pela floresta, a área de fuga dos bandidos. Era uma zona de guerra: os policiais estavam todos de preto e os bandidos, de roupas camufladas, os dois lados altamente armados. Os tiros iam e vinham, a tensão crescente.

Santos viu uma bala acertar seu amigo, foi até ele, mandou no rádio a localização e o pedido de ajuda, e continuou. Parado era alvo fácil. Seguiu atirando e avançando. Conseguiu chegar a uma ruazinha que certamente era a rota dos que fugiam de moto. Ficou ali de tocaia, esperando para a emboscada.

João recebeu uma ligação desesperada da mãe: a irmã estava tendo convulsões. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas o remédio que ela precisava tinha acabado. João precisava levá-lo o mais rápido possível, ou sua irmã poderia morrer. Pegou o remédio, subiu na moto e foi correndo. A entrada da favela estava bloqueada, porém João conhecia um atalho. Era perigoso, mas era a vida da irmã que estava em risco. Acelerou a moto e foi.

Santos estava bem posicionado. Qualquer moto que tentasse fugir por ali, ele abateria.

O coração batia acelerado, sabia que também era alvo ali, em campo aberto, no entanto tinha conseguido uma posição privilegiada. Ouviu o barulho de motor e, quando conseguiu avistar o motoqueiro, começou a atirar. Deu quatro tiros, e o motoqueiro caiu morto no chão. Foi até lá para verificar se tinha conseguido abater o chefe do morro, a grande missão daquela operação.

Assim que saiu da sua posição, ouviu novos barulhos de tiros. Tentou voltar, mas já era tarde: um tiro acertou sua cabeça, e ele caiu morto ao lado do motoqueiro.

Dona Judith andava de um lado para o outro em casa. Já fazia uma hora que ligara para João levar o remédio da menina, e até agora nada. Tinha conseguido fazer os espasmos diminuírem, mas sabia que precisava do remédio.

Seu coração foi à boca quando ouviu alguém gritar seu nome lá fora. Teve um calafrio e sentiu que não era notícia boa.

Na rua, a vizinha gritava:

— Judith, mataram seu filho!

Disse que tinham levado o corpo dele pra praça, que estava cheia de corpos, que muita gente tinha morrido. Gritava, desesperada.

Dona Judith achou que ia desmaiar. Começou a chorar. Suas preces não tinham sido atendidas naquele dia. Seu filho tinha sucumbido. Pediu pra vizinha vigiar a filha e foi pra praça, se despedir do seu menino.

A praça parecia uma zona de guerra. Quantos corpos, meu Deus. Ia passando, procurando por Wallace. Quando viu o corpo do filho, caiu no chão.

— Não, Deus, isso não é justo. Por que ele, Senhor?

Dona Judith estava esperando encontrar o corpo de Wallace, mas era o de João que estava à sua frente, com o remédio da menina ainda preso nas mãos.

Uma parte de Dona Judith morreu junto com João.

Mais tarde, em casa, quando viu na televisão o governador falar que a operação fora um sucesso e que as únicas vítimas que valiam o choro eram os policiais, teve vontade de vomitar. Chutou a TV, quis jogar longe.

Na tela, aparecia o bebê de Santos e sua viúva aos prantos. Chorou por ele também — toda vida perdida é digna de sofrimento.

Quis chorar ainda mais pensando que só ela sofreria por João. Seu filho valia muitas lágrimas, mas só teria as dela.

Texto de: Paula Soledade dos Santos – @letepasosa

Revisão: Angélica Filha

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