Quando sobreviver também é uma forma de produzir conhecimento

A joyful moment between mother and daughter in a modern kitchen setting.

Não me lembro da última vez em que a vida foi simples. Talvez ela nunca tenha sido. Ser mulher negra, no Brasil, é aprender desde cedo que alguns caminhos serão mais longos, mais íngremes e mais solitários. Cresci entendendo que precisaria estudar mais, trabalhar mais e provar mais para alcançar lugares que, para outras pessoas, pareciam naturais. Mas eu não imaginava que a maternidade me apresentaria desafios ainda maiores, nem que, em meio a tantas tempestades, a universidade se tornaria um dos poucos lugares onde eu ainda conseguiria sonhar.

Sou uma mulher negra. Sou mãe de uma criança com deficiência. Sou divorciada. Sou pesquisadora. Essas identidades não caminham separadas. Elas se entrelaçam todos os dias, moldando quem sou e a forma como enxergo o mundo.

Quando minha filha recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), senti como se o chão desaparecesse sob meus pés. Não porque ela tivesse deixado de ser a criança extraordinária que sempre foi, mas, porque, naquele instante, compreendi que nossa vida seria atravessada por batalhas as quais ninguém havia me ensinado a enfrentar.

Vieram as consultas intermináveis, os laudos, as terapias, os especialistas, as filas, a busca por escolas inclusivas, a luta por profissionais de apoio, as audiências, os documentos, os recursos administrativos e judiciais. Descobri que, para garantir os direitos da minha filha, eu precisaria aprender uma nova linguagem: a linguagem da legislação, das políticas públicas e da resistência.

Enquanto muitas pessoas enxergavam apenas uma mãe acompanhando a filha em consultas, eu estava me transformando, sem perceber, em pesquisadora da própria realidade. Passei a ler leis como quem procura abrigo. Aprendi a interpretar decisões judiciais antes mesmo de dominar completamente determinados autores da academia. Cada direito conquistado era resultado de muito estudo, insistência e coragem.

No meio desse percurso, meu casamento terminou.

O divórcio não representou apenas o fim de uma relação. Representou a necessidade de reconstruir minha identidade enquanto mulher, mãe e profissional. Há dores que não aparecem nas fotografias nem nas redes sociais. Existe um silêncio que acompanha as mulheres quando elas precisam continuar funcionando, mesmo emocionalmente exaustas.

Muitas vezes chorei depois que minha filha dormia. Havia dias em que eu precisava escolher entre descansar ou terminar um artigo científico. Entre organizar a casa ou cumprir um prazo acadêmico. Entre cuidar de mim ou cuidar de tudo o que dependia de mim.

Quase sempre escolhia o “tudo”.

Foi justamente nesse período que a pós-graduação deixou de ser apenas um sonho profissional. Tornou-se um ato político.

Permanecer na universidade, sendo uma mulher negra, mãe solo de uma criança com deficiência, era desafiar estatísticas que insistem em nos empurrar para fora desses espaços. Quantas mulheres desistem? Quantas interrompem seus estudos porque o cuidado ocupa todas as horas do dia? Quantas deixam de produzir conhecimento porque ninguém reconhece o trabalho invisível que realizam dentro de casa?

Eu decidi permanecer.

Não porque fosse fácil.

Mas porque compreendi que minha permanência também abriria caminho para outras mulheres.

Escrever uma tese enquanto acompanho terapias, reuniões escolares, consultas médicas e processos judiciais significa produzir ciência em condições que raramente aparecem nos currículos acadêmicos. Meus textos carregam muito mais do que fundamentação teórica. Carregam noites sem dormir, leituras feitas em salas de espera, capítulos escritos dentro do carro, enquanto aguardava minha filha sair de um atendimento.

Há quem imagine que conhecimento nasce apenas dentro das bibliotecas.

O meu nasceu também nos corredores dos hospitais, nas recepções das clínicas, nas audiências judiciais e nas reuniões escolares onde precisei explicar, inúmeras vezes, que inclusão não é favor. É direito.

Minha pesquisa acadêmica também passou a refletir minha própria história. Ao estudar o perfil da mulher agricultora no meio rural brasileiro, percebi quantas mulheres permanecem invisíveis, sustentando famílias, comunidades e economias inteiras sem o devido reconhecimento. De alguma forma, enxerguei nelas um pouco de mim. Mulheres que seguem produzindo, cuidando, resistindo e reinventando a própria existência mesmo quando o mundo insiste em ignorar seu trabalho.

Ser mulher negra na academia significa, muitas vezes, carregar a responsabilidade de representar muitas outras que não conseguiram chegar até ali. É sentir que cada conquista individual possui um significado coletivo. Quando uma de nós publica um artigo, conclui uma pesquisa ou ocupa um espaço de fala, outras mulheres passam a acreditar que também podem.

Hoje já não penso na força como uma característica pessoal.

Penso na força como uma construção coletiva.

Ela nasce das mulheres que me antecederam, das que caminham ao meu lado e das que ainda virão. Nasce das mães atípicas que transformam dor em mobilização social. Das mulheres negras que recusam o silêncio. Das pesquisadoras que insistem em produzir conhecimento apesar das desigualdades estruturais.

Ainda existem dias difíceis.

Ainda existem momentos em que o cansaço parece maior do que qualquer esperança.

Mas aprendi que sobreviver também é um verbo revolucionário.

Sobreviver ao racismo.

Sobreviver ao machismo.

Sobreviver ao capacitismo.

Sobreviver ao abandono.

Sobreviver às perdas.

E, mesmo assim, continuar estudando, pesquisando, escrevendo e sonhando.

Minha filha talvez nunca compreenda completamente tudo o que enfrentamos para chegar até aqui. Talvez ela apenas se lembre de uma mãe que passava horas lendo livros, escrevendo textos e defendendo seus direitos com firmeza.

E isso já será suficiente.

Porque, no futuro, quero que ela saiba que sua mãe não estudou apenas para conquistar um título acadêmico. Estudou para transformar a própria história. Estudou para abrir caminhos. Estudou para que outras mulheres negras, outras mães atípicas e outras pesquisadoras encontrassem portas menos pesadas do que aquelas que precisei empurrar.

Se hoje continuo na pós-graduação, não é porque a vida ficou mais fácil.

É porque descobri que minha existência também é uma pesquisa sobre resistência.

E essa talvez seja a mais importante de todas.

Texto de: Paula Trindade – @autismo.ciencia

Revisão: Angélica Filha

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