O desamparo de fingir que está tudo bem

Quantas vezes nós, pais, nos apressamos a declarar: “Está tudo bem. Foi só um susto. Não foi nada grave”, quando uma criança cai no chão. Mas o que a criança sente é que doeu. Pode sentir vergonha de ter caído. Para ela, não está tudo bem.

Por que, então, a nossa pressa em passar por cima do que ela vive para declarar uma falsa tranquilidade?

Onde foi que aprendemos que o melhor é negar a dor e fingir que já passou?

Por que nos incomoda tanto nos conectarmos com a experiência de dor, medo ou frustração do outro? Especialmente quando o outro é nossa filha ou nosso filho?

Talvez seja um reflexo do que aprendemos quando crianças. Reflexo dos tombos que levamos na vida, quando nos disseram: “Já passou, upa, levanta”, em vez de nos oferecerem um olhar cúmplice e um colo, apenas.

Parece que, enquanto pais, temos tanto medo de mimar nossos filhos que, em muitos momentos, os deixamos desamparados. Sozinhos para lidarem com suas dores.

Lembro da fala de uma mulher que me marcou. Quando criança, ela tinha medo do escuro — quem nunca? Tinha medo de dormir sozinha no próprio quarto. Quando sua irmã nasceu, aos quatro anos, foi retirada do quarto dos pais.

Ela se lembra de sentir medo, mas de saber que não podia mais pedir ajuda. Também teve ciúmes da irmãzinha. Mais uma vez, não foi acolhida. Ter ciúmes era feio. Precisava sentir apenas amor pela irmã, como se isso fosse possível.

Aprendeu que era problemática, talvez até má, por sentir o que qualquer criança sentiria. Sentiu-se inadequada por ser humana. E, não surpreendentemente, tornou-se uma pessoa que luta para ser perfeita, mesmo sabendo que isso é impossível.

Percebo como é difícil, enquanto pais, ajustarmos nossas expectativas sobre o que as crianças podem verdadeiramente sentir e fazer.

Por que exigimos tanto?

Por que exigimos uma maturidade dos nossos filhos que nós, como adultos, tantas vezes não temos?

Acho que olhar para nossa própria vulnerabilidade é um caminho. Lembrar que nós, quando crianças, também sentimos medo, raiva, vergonha e frustração. Perceber que todas essas emoções são válidas. São humanas.

Quando algo me incomoda no que minha filha faz, acende em mim uma luzinha vermelha: “Aqui deve haver algo do meu passado que estou tentando não lembrar”. Algo que também doeu em mim, mas que hoje prefiro acreditar que “foi tudo bem, foi só um susto”.

“Levanta, levanta. Upa, upa.”

Lembro, ao escrever este texto, de ter sentido, enquanto criança, a dor da vergonha. Tive vergonha em algumas situações em que me senti muito exposta.

Sabe aqueles encontros familiares em que se juntam pessoas com as quais você não convive e com quem não tem intimidade, e você vira, por alguns instantes, o assunto?

“Ah, como cresceu! Olha que linda! Olha essa roupa. Ah, já tá uma mocinha.”

Eu sempre fiquei desconfortável com muitos holofotes.

Também lembro de ter sentido muita vergonha quando me apresentei em um evento da escola, cantando uma música sem me sentir preparada. Lembro da sensação de querer sair dali. Estava desconfortável com tanta gente me vendo cantar sem que eu me percebesse com habilidade ou treino suficientes para aquilo.

Mas o pior mesmo era sentir vergonha da vergonha.

E, com isso, não poder falar sobre o que sentia. Não poder dizer: “Sim, já passou o evento da escola, mas ainda dói”.

Quando uma experiência é difícil, aí sim precisamos falar sobre ela para elaborá-la. Dar nome ao desconforto nos ampara. Tecemos uma rede de palavras que nos apoia.

Essa rede também é feita de olhares compreensivos. É feita de abraços. De lágrimas. É construída com respeito ao nosso tempo. É nessa rede que podemos finalmente repousar.

Precisamos aprender a não calar. E ter filhos nos dá uma nova chance de nos olharmos, de nos acolhermos, de nos narrarmos. Para assim sermos, mais vezes, capazes de acolhê-los como merecem.

Cair dói.

Vergonha dói.

Medo do escuro dói.

Ciúmes dói.

É preciso validar: não, não está tudo bem.

E, quando aceitamos sem crítica e sem pressa o que de fato sentimos, quando podemos falar sobre o que dói, aí sim abrimos caminho para nos sentirmos mais em paz com a nossa humanidade.

Por Cláudia Sampaio, – Lisboa – @claudiasampaiocs

Revisão: Bibianne Terra

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