Coluna – Quando a mulher tem medo de se perder na maternidade

Beautiful pregnant woman with curly hair embracing maternity in a serene indoor setting.

Nem sempre dá para perceber quando uma mulher está se perdendo na maternidade. Por fora, ela parece estar dando conta: organiza a rotina, mantém o trabalho, acompanha consultas, planeja o enxoval, responde mensagens. Mas, por dentro, pode estar se sentindo confusa, ansiosa, sobrecarregada como se algo nela estivesse saindo do lugar.

Esse medo quase nunca é falado. Porque não é um sofrimento evidente. Não é sobre “não amar o bebê” ou “não querer ser mãe”. É mais silencioso. É o medo de deixar de ser quem sempre foi. De não se reconhecer mais. De se perder de si no meio de tantas mudanças.

A maternidade é, de fato, uma das maiores transformações da vida de uma mulher. O corpo muda, os papéis se reorganizam, a rotina se transforma e, junto com tudo isso, a identidade também é atravessada. Mas, ao contrário do que muitas vezes é dito, essa transformação não acontece de forma automática e nem sempre é leve.

Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher “vai dar conta”.
Que ela vai se adaptar, se reorganizar, encontrar seu novo lugar sem precisar de ajuda. Mas o que vemos na prática é que muitas mulheres entram nesse processo tentando sustentar tudo sozinhas, e é exatamente aí que começam a se perder.

O medo de se perder não é fraqueza.
É um sinal de consciência.
É a percepção de que algo importante está em jogo: a própria identidade.

Quando esse medo é ignorado, ele tende a crescer.
Aparece na forma de ansiedade, pensamentos repetitivos, dificuldade de tomar decisões, irritabilidade ou uma sensação constante de estar sobrecarregada. Muitas mulheres seguem funcionando, mas internamente já não se sentem mais no controle de si mesmas.

E o problema não é a maternidade em si.
É a falta de preparação emocional para atravessá-la.

Preparar-se para a maternidade não deveria ser apenas sobre o parto, o enxoval ou os cuidados com o bebê.
Deveria ser, também, sobre como sustentar quem se é durante esse processo. Sobre como organizar as emoções, antecipar desafios e fortalecer a própria identidade.

No meu trabalho com gestantes e mulheres no puerpério, uma das frases que mais escuto é:
“Eu achei que daria conta… mas não imaginei que ia me sentir assim.”

E, muitas vezes, o que essa mulher precisa não é apenas acolhimento.
É direção.
É um espaço onde ela consiga entender o que está sentindo, organizar o que está confuso e construir uma forma mais consciente de atravessar essa fase.

Porque a maternidade não precisa ser um processo de perda.
Mas, para isso, ela não pode ser vivida no automático.

Falar sobre esse medo é um passo importante.
Reconhecer que não dá para dar conta de tudo sozinha também.

Cuidar da saúde emocional na gestação e no pós-parto não é um detalhe.
É o que sustenta a mulher para que ela possa viver a maternidade sem abrir mão de si mesma.

Autor

  • Paula Alves

    Paula Alves é psicóloga de gestantes - CRP04/31469, mãe da Maria Cecília e é especialista em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, com mais de 15 anos de experiência. Atua no acompanhamento psicológico de gestantes e mães no pós-parto, além de ser docente em um curso de formação de doulas. Acredita que maternar não deve ser sinônimo de solidão e que falar sobre saúde mental materna é fundamental. No Instagram, compartilha reflexões e conteúdos sobre o tema: [@paula.psiperinatal].

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