O único espelho importante

solidão materna

Quatro anos. O tema era “Alice no País das Maravilhas”. Nossa casa, um cenário de coelhos apressados e chás malucos desde o despertar. Me atrevo até a dizer que, pelas circunstâncias daquela manhã maluca, eu poderia ser facilmente confundida com a Chapeleira Maluca, preparando cada detalhe dessa aventura com a energia que só a mãe de uma aniversariante consegue ter.

No banheiro, em frente ao espelho que tantas vezes me devolveu a imagem em “preto e branco” — da mãe solo da qual tanto me esquivei durante a juventude – dividida entre mil papéis, eu tentava me desfazer da fantasia e me transformar, em poucos minutos, no mãe que vai festejar. Naquele instante, ela entrou no quarto, parou à porta, os olhos fixos na minha imagem.

E veio a frase, pura, sem filtros e sem artifícios. Como um raio de sol atravessando o dia nublado: “Mamãe, como você está linda!”

Aquelas cinco palavras foram o pagamento de quatro anos de trabalho ininterrupto, decisões difíceis e horas intermináveis longe de você. Naquele momento, eu era a mulher mais linda do mundo, porque era o que o meu único espelho importante refletia.

Mas era impossível não sentir. Abaixo de todo o colorido primário daquele País das Maravilhas, havia aquela ansiedade silenciosa que todo ano chega. A data mais vulnerável para a minha ferida. Quatro voltas completas da Terra e, em todas elas, o cenário grita: “Ele não mandou uma mensagem”.

Eu sei que ele perde. Perde o riso que desarma, a curiosidade que não para e a inteligência afiada. Ele perde a chance de conhecer a garotinha muito, muito, muito especial que ela é e, sem dúvida, a pessoa mais legal que eu conheço.

Mas o cerco está se fechando. Em breve, ela não vai se contentar com as minhas distrações. Vai olhar para mim e perguntar: “Por que eu não tenho um pai presente?” E eu… eu não saberei o que dizer.

A verdade é que esse buraco eu nunca conseguirei tapar. Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu me esforce. Eu não sou mãe e pai. Eu sou a melhor mãe que posso ser para ela. E esse é o limite da minha força e do meu querer.

E talvez, só talvez, na força daquele amor que me faz a mulher mais linda do mundo, a ausência dele seja apenas um detalhe em preto e branco na nossa “travessia colorida”.


Por Tamara Cristina – @leituracomtamara

Revisão: Bibianne Terra

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