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Interessante pensar num nome! Criar um…

Qual será o nome que darei ao meu personagem?! Vamos ver…

“Pimpolho”, não! É muito infantil. “Zangado”, não! É muito áspero. “Super D”… Isso, eu gostei! O nome se parece com ele. Este é o meu personagem: “Super D”.

É uma pessoinha curiosa, desconfiada, inteligente, ativa, terrivelmente desorganizada e com olhinhos de Raio-X. Isso mesmo! Tenho até receio de procurar ler a mensagem dirigida pelos seus olhos! Quando procuro entender alguma de suas atitudes “estranhas”, fica difícil encontrar o nexo; é preciso procurar muito. É uma viagem!

Não sei se é pelo tanto que lê, ou se pela precocidade desse hábito, noto que suas ideias seguiram muito adiante do real, provocando certo atropelo entre os valores “normais” da vida. Ama a liberdade de maneira exacerbada, achando que ela é incondicional e total, fazendo com que cada pessoa, desvencilhada de tudo e de todos, possa tomar o rumo desejado no momento em que achar certo, sem regra, sem limite. Estou aqui, quero sair, não importa a hora, não importa o compromisso assumido, não importam os laços que me prendem, nada importa. Saio sem explicar, sem deixar recado, simples assim. Para ele, tudo é visto desse ângulo.

Paro para pensar se não é um caso de alienação completa, ou egocentrismo exagerado. Ao mesmo tempo, penso que tudo pode ser apenas uma questão de emoções não definidas e não separadas em seus respectivos departamentos. Passo dias nesta análise, buscando respostas.

“Super D” é calado, meticuloso, pensativo, irreverente. Fala o essencialmente necessário, mas age como formiguinha. Elétrico, não para um segundo e maquina a sua cabecinha incessantemente. Isso preocupa. Ideias de mais e juízo de menos.

Percebo agora, quando tudo já se tornou confuso, que “Super D” teve momentos doces, cautelosos e solidários. Esses momentos passaram despercebidos aos olhos dos adultos, daqueles adultos que realmente importavam e completavam o seu mundo. E, como tudo que não se valoriza, esses momentos escorregaram por entre os dedos, feito areia. “Super D” não teve dúvidas. Pensou, avaliou, reavaliou e, dentro desse seu mundo, cultivou aquilo que realmente dependia dele, somente dele, e deu a cada anseio a liberdade de um pássaro. Suas vontades voaram soltas, sem limites. Isso mesmo, sem limites. Tornou-se descomedido, afoito, e com isso veio, a reboque, a desorganização.

Seu quarto é um depósito, ou melhor, um disparate. Brinquedos, cadernos, gibis, livros, roupas, calçados, vasos com plantas minúsculas, vasilha com água para regá-las… Tudo jogado, amontoado. Rebuliço completo! As portas do armário decoradas com figuras loucas, esportivas e eróticas. Um verdadeiro caos!

A porta é sempre uma armadilha. Quem ousar entrar sem anuência prévia, certamente será recebido por uma máscara aterradora presa a um travesseiro, por um jato de água, ou pela ligação direta do aparelho de som num volume capaz de assustar até o mais lerdo de ouvido. As armadilhas são cuidadosamente preparadas e maquinadas, com aprimoramento cada vez mais avançado.

Nesse mundo louco do seu quarto, com o som da música nas alturas, “Super D” encontra a sua paz. Chega a ser contraditório, mas é verdadeiro. Bobagem tentar pôr ordem em seus objetos! Desordena a sua cabecinha. No meio de tanta confusão é capaz de encontrar, a qualquer momento e em frações de segundo, o brinquedo ou aquilo que procura. Incrivelmente assustador!

Na escola é um mistério. Concentrado, comportado, gentil e amado. Seus deveres são feitos de maneira fugaz. Ninguém o vê estudando fora da escola. Diz abertamente que não gosta de estudar, que é apenas uma obrigação. E é um aluno brilhante e muito acima da média. Coloco isso na conta da sua inteligência. Não há outra explicação!

Tudo isso surpreende! Acho que aí está o fascínio que ele desperta nas pessoas que o cercam. Incrivelmente rebelde, literalmente egocêntrico, totalmente sem limites e profundamente amado.

Quando dorme, seu semblante lembra um anjo. Rosto sereno, saudável, perfeito, artisticamente desenhado e querido. Não fosse a agitação do sono, lembraria o repouso de um recém-nascido.

Acordado é um terror! A bola, sempre com pontaria certeira, não para de carimbar os lustres, os pratos da parede, o relógio, as portas e a cabeça dos que passam – quando não carimba lugares piores, é claro! Um furor! Tê-lo por perto é como esperar, a qualquer momento, a explosão de uma bomba, um terremoto, um dilúvio… Tudo pode acontecer.

Interessante como abre e fecha as portas. Usa o pé. Chega a tremer o batente, treme a parede e parece que o lustre fica prestes a cair. Uma loucura!

Chamar à atenção? Perda de tempo! Método exaustivamente empregado. Olha com ar meigo, arrependido, promete não repetir a cena. Em menos de quinze minutos esquece todas as juras. Quinze minutos já é um grande prêmio! Quase sempre, bem antes disso, já repetiu a dose.

Castigo? Inútil; não surte efeito. Parece que fica acuado, machucado, enraivecido. Não é por aí! Ideal seria se compreendesse e se descobrisse o seu limite. Depende dele. Tenho certeza de que ele vai chegar lá! Enquanto isso não acontece, o jeito é amortecer no peito, ajeitar de canhota e rebater.

Dialogar?! É enervante. Fica desligado, com um sorriso entre o irônico e o ausente. Quando procuro trazê-lo de volta ao papo, olha-me sobressaltado, com ar de quem não pegou o fio da meada. Não; além de desgastante, é infértil. A esperança é aquele velho refrão: “das boas palavras, sempre fica uma sementinha”. Tomara!

Assim é “Super D”. Adora plantas! Cultiva-as aos montes. São inúmeras espécies, sempre minúsculas. A mais extravagante no tamanho é um pé de limão que ele insiste em deixar no quarto. Sempre o coloca perto da janela porque sem a luz do sol não produzirá frutos. No fim, chego até a torcer para que realmente frutifique!

Em cada vaso, uma tabuleta, artesanalmente feita com o nome dado a cada planta. Nomes excêntricos: Genoveva, Porfíria, Madonna, Cacilda, Rita Lee… Tenho a impressão de que conversa com elas. Estão sempre bonitas, viçosas! Se for verdade que as plantas sentem as vibrações do ambiente, estas devem estar entorpecidas, devem ficar alucinadas quando “Super D” ouve o seu “discreto” som. Acho que chegam à beira de um colapso! Se pudessem, acho que gritariam desarvoradas!

Sabe o que me preocupa mesmo? Várias vezes encosto o ouvido na porta do quarto para me certificar de que não há nenhum barulho estranho. “Super D” seria bem capaz de criar algum bicho ali dentro! Seria até possível criar um mico no meio daquelas plantas. Meu Deus! Tremo só em pensar!

Bonito é vê-lo entre os amigos. São poucos, mas fiéis. Extraordinariamente unidos. São amizades fundamentadas em anos e anos de convivência. Desiguais, entendem-se e respeitam-se como uma sociedade ideal! Quando se reúnem, limito-me a servir um lanche, um suco e supervisiono de longe. Adulto neste momento é extraterrestre; pior que isso, é intruso mesmo!

Engraçado! Eu os vejo como lunáticos. Penso que, se eu firmar bem os olhos, serei capaz de enxergar anteninhas brotarem de suas cabecinhas. Doidice!

E nesse vaivém, entre saltos e sobressaltos, a vida rola. Em certos momentos, chego a pensar que falamos línguas diferentes. Fico aflita e incomodada. Ele, sempre na dele. Não se abala com nada e a vida é uma largueza! Pura curtição! Ao mesmo tempo, empolgo-me. Firmo o pensamento de que essa geração será privilegiada. Feliz e saudavelmente realizada.

Agora, com sinceridade, o que mais gosto do meu personagem, a mola que me joga para cima, que me enche de ânimo e vontade de viver, é quando vejo “Super D” chegar de mansinho, e, com aquele jeitinho de “lunático sonhador”, dizer:

– Tudo bem, mamãe?!


Autora: Regina Ruth Rincon Caires.

Revisado por Luiza Gandini.

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