Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Hoje é o nosso terceiro encontro e é bom relembrarmos o que foi dito nos dois primeiros textos. Primeiro, numa breve introdução, abordei a complexidade e extensão do tema. Alertei para a dificuldade de falarmos sobre os paradigmas ligados à maternidade e como seria necessário a quebra desses para seguirmos num caminho de conhecimento. No segundo texto comentei sobre a questão da saúde mental, toda a nossa insegurança em olharmos com atenção para o assunto e as complicações de tal atitude, gerando diagnósticos excessivos e generalizações superficiais e prejudiciais.

Com base no que foi discutido, penso já ser o momento para aprofundarmos e falarmos sobre o conceito de “narcisismo”, ou melhor, sobre “os narcisismos”.

Acredito que todos já tenham ouvido e até mencionado esse termo para inúmeras situações, sejam elas sérias ou descontraídas. O narcisista é visto e citado no nosso dia a dia e, geralmente, se refere àquele que se preocupa excessivamente consigo e esquece os que o rodeia. É tido, muitas vezes, como aquele que “se acha”, na linguagem popular. Porém, é importante nos atentarmos para as várias representações desse mesmo termo, que pode ser variado e muitas vezes confundido. Então vamos esclarecer!

Há quem já tenha ouvido falar sobre o mito de Narciso, aquele que morre afogado no reflexo de sua imagem. Está aí a origem do termo, tomado pela psicanálise e utilizado em suas teorias. Apesar do termo Narcisismo já ter sido utilizado por outros profissionais, foi Freud quem o empregou de forma ativa na produção de seu trabalho da psique humana. Foi a partir disso que o termo narcisismo ganhou tamanho e espaço num tom diferente.

Na teoria psicanalítica Freudiana, falamos do Narcisismo como característica que pertence ao desenvolvimento humano, ou seja, o narcisismo faz parte de todos nós e é, aliás, um dos pilares para o nosso desenvolvimento psíquico. A partir do reconhecimento de si e do investimento de energia (libido, como diz Freud), desejo e cultivo a si próprio, criamos a concepção do que é outro. Assunto bem longo e complicado, mas o que vale aqui é entendermos o narcisismo como algo presente em nós e que nos base, sendo uma fase de desenvolvimento, para evoluirmos mentalmente e criarmos relações saudáveis, inclusive com nós mesmos.

Porém, muitas fases do desenvolvimento se tornam problemas quando não vivenciadas de forma saudável. Assim, se criam camadas e mais camadas de dificuldades, umas mais fáceis de lidar e outras que vão comprometer nosso viver, diariamente. Muitas dessas questões é o que levamos para a terapia, por exemplo. Questões essas vividas numa infância, no processo de desenvolvimento, e que nos deixaram marcas profundas que regem nosso comportamento e, na maioria das vezes, são de ordem inconsciente. Vivenciar o narcisismo é fundamental para o amadurecimento, na teoria psicanalítica, mas não o vivenciar adequadamente, num ambiente que lhe favorece o crescimento, trará danos ao comportamento do indivíduo, principalmente quando se tratar de suas relações.

De outro lado, há o Transtorno de Personalidade Narcisista. Aqui, estamos falando de uma psicopatologia que se enquadra do campo dos Transtornos de Personalidade. Aqui não estamos falando apenas de algo esperado no nosso desenvolvimento, não estamos falando de fases e apenas algumas dificuldades ao se relacionar com o outro, estamos falando de um diagnóstico sério, uma patologia mental. Esta é uma condição crônica, sem cura, que necessita de tratamento específico e repleta de complicações comportamentais e relacionais que afetam não somente a pessoa com a patologia, mas consequentemente os que convivem com ela. Nela, o indivíduo tem um senso inflado de sua própria importância, uma profunda necessidade de atenção e admiração excessivas, relacionamentos conturbados e falta de empatia pelos outros.

A linha é tênue entre os conceitos de narcisismo. De um lado o narcisismo psicanalítico, aquele que faz parte e é preciso ser vivido num desenvolvimento saudável, e de outro, o transtorno de personalidade, patologia que traz uma série de problemas que necessitam de um tratamento especializado.  O primeiro pode, muitas vezes, desencadear no segundo, mas isso não quer dizer que todos que apresentam um comportamento que nos remete ao narcisismo, tenha o diagnóstico. Entende? 

A importância em distinguirmos esses dois conceitos de narcisismo é entendermos que a generalização de um, pode gerar em tratamentos inadequados ou até mesmo banalizar uma patologia, isso é uma irresponsabilidade advinda da nossa ignorância frente ao assunto. Devemos lembrar que quem realiza diagnósticos é um profissional especializado, nesse caso, um psiquiatra, que geralmente não é procurado pelo sujeito narcisista, mas sim pelas pessoas que convivem com este.

Generalizar é banalizar. Banalizar as diferenças, banalizar o sofrimento e banalizar questões que nos permitem aprender e se desenvolver de forma próspera e saudável.

No próximo texto iremos nos aprofundar no narcisismo e este ligado à maternidade. Então, até lá!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui