Mulheres-mães protagonistas da própria história

Coluna | A criança é o que esperamos que ela seja 

Compartilhe esse artigo

Certa vez, no meio do ano letivo, a turma do 4º ano recebeu uma criança transferida de outra escola. Ela vinha com as seguintes recomendações: briguenta, malcriada e com dificuldades de aprendizagem. Chegou e foi acolhida. Era tímida, falava pouco, mas foi aos poucos se integrando ao grupo. 

Passadas algumas semanas, os pais marcaram uma reunião e o motivo era saber por que a professora ainda não os havia chamado para reclamar da criança. “Ela é terrível, não para quieta, é respondona” – eles diziam. 

A professora contou àquela família a criança que tinha em sala de aula: tímida, mas que aos poucos se integrava ao grupo; com dificuldades, mas que estava apresentando avanços na aprendizagem. Uma criança amável, que se oferecia para ajudar e, lentamente, fazia amizades.

Os pais se espantaram e a professora também: parecia que falavam de duas crianças diferentes. Foi então que a professora lembrou de algo que havia estudado na faculdade: o Efeito Pigmaleão. 

Também conhecido como Profecia Autorrealizadora (ou Efeito Rosenthal, nome do estudioso que, em 1968, junto a Jacobson, a descreveu) é um fenômeno que explica o efeito das nossas expectativas sobre alguém.

O que isso quer dizer? Que a expectativa que se tem sobre uma pessoa acaba se convertendo em realidade, uma vez que a “profecia” gera influência em seu comportamento. 

Por estarem em pleno desenvolvimento, as crianças absorvem muitas explicações e expectativas e ajustam seu comportamento de modo a corresponder a elas. 

Isso tanto pode gerar um círculo vicioso quanto virtuoso, de modo que quando se espera pouco da criança, em geral, oferece-se a ela menos desafios, que consequentemente a fará obter menores resultados. 

Isso tende a reduzir (ainda mais) as expectativas sobre essa criança, o que pode lhe gerar menor autoconfiança (círculo vicioso). 

Por outro lado, quando se espera mais da criança, lhe são oferecidos mais desafios. Ao enfrentá-los, a criança obtém maiores resultados, aumentando sua autoconfiança e, por conseguinte, a expectativa do adulto sobre seu comportamento (círculo virtuoso).

Em “Longe da Árvore”, Andrew Solomon menciona que, quando se tem uma criança com alguma deficiência, ao considerar essa deficiência como uma “doença”, tem-se a percepção de conviver com alguém doente, ao passo que se a deficiência for considerada uma “identidade”, a percepção será a de conviver com alguém diferente (neurodivergente), mas, não por isso, doente ou incapacitado.

Você já parou para pensar no efeito das suas expectativas sobre a(s) sua(s) criança(s)? 

Se o comportamento dela(s) é, em parte, o reflexo do que pensamos a seu respeito, talvez devêssemos buscar formas de confiar, desenvolver autonomia e honrar cada vez mais a infância de nossas crianças.

Referências

Rosenthal Robert. & Jacobson Lenore. Teacher Expectation for the Disadvantaged. Scientific American, vol.  218, n o4, 1968, p.  19-23.
SOLOMON, Andrew. Longe da Árvore: pais, filhos e a busca da identidade. Tradução: Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo, Pedro Maia Soares – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Revisão: Stefânia – @tevejomae

Compartilhe esse artigo

Leitura relacionada

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *