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E ela chegou junto com o dia em que meu namorado leu pra mim uma matéria sobre as mães que estão adoecendo física e psicologicamente devido aos atuais acontecimentos. Ele lia enquanto eu escutava a voz dele soar como se estivesse em outro cômodo, quando, na verdade, ele se encontrava do outro lado da sala de um apartamento de 53 metros quadrados. E enquanto eu enxergava praticamente nada, com dores fortíssimas de cabeça, tremores, náusea, tontura e a sensação de que as paredes se fechavam ao meu redor.

Uma crise de enxaqueca que trouxe junto uma crise de pânico. Enxaqueca essa que deveria ter sido medicada quando começou, próximo ao almoço e que não foi. Eu tinha demandas a dar andamento e uma reunião inadiável que já havia sido adiada de manhã cedo, transportada para o período da tarde, e que me custou um pedido muito sem jeito pra minha rede de apoio “ficar só mais um pouquinho” com as crianças, sendo que o combinado era somente o período da manhã. 

Pois bem. Guardei a enxaqueca no fundo da gaveta e mergulhei nas planilhas. Até não aguentar mais. E nesse ponto, já na reunião, aguentei por duas horas, sorrindo, tomando notas, absorvendo informações importantes que vou passar adiante depois. Ninguém notou. Mais uma vez eu mereci um Oscar, ou um Emmy de melhor atriz. 

Escrevendo esse texto faço as contas. Das 09 da manhã ao final da reunião às 6 da tarde, foram 5 xícaras de café. Xícaras essas despejadas num corpo de 1,69 e 55 quilos que tem se espremido noite após noite em uma caminha tamanho infantil pois a mais nova está na fase do medo de dormir sozinha e abraçar a irmã mais velha não basta. Ela precisa do cheiro e do contato da mãe. Ou seja, eu. 

Some a isso preocupações diárias como o que falta na despensa, como anda a fatura do cartão, entretenimento durante as férias escolares, administração das contas da casa em meio a uma inflação que está fazendo assalariados e MEIs que nasceram até meados da década de 80 perderem noites de sono fazendo jogos de tira e põe com as mesmas, a manutenção de um relacionamento afetivo e a famosa culpa materna. Você terá uma mulher que ignorou e medicou azias com hidróxido de alumínio ou antiácido, e que tapeou outras mazelas do corpo em casa mesmo, com remedinhos e chás, pois estava firme no intento de deixar o mínimo de pratinhos possíveis caírem. 

E vocês me dirão: “Ah, mas e a terapia?” Bem, eu respondo: ela está em dia. Tão em dia que enquanto eu deitava por 30 minutos antes das crianças voltarem esperando o remédio fazer efeito, eu só lembrava da frase que me foi dita: “Quem cuida de quem cuida? Pense nisso. Se você não quiser faltar, é melhor olhar mais pra si mesma e ser menos estóica.” Estóica. Palavra de velho. E eu sou millennial.

Crise superada, medicação tomada e cá estou eu, espremida de novo na caminha às 4 da manhã sem pregar o olho. E o que eu aprendi hoje/ontem? Nada que eu já não soubesse. Estamos adoecendo. Estamos cuidando de todos mais do que nunca e empurrando nossas necessidades para dentro da gaveta. Esperando uma vacina que, quanto mais se aproxima a data, mais o tempo se arrasta. Ansiando e se culpando por ansiar a volta aos escritórios, às aulas, à vida. Quando tudo isso passar seremos nós a varrer os cacos dos pratos que deixamos cair nesse mais de um ano de pandemia. Estóicas e resilientes. 

Duas coisas que não deveríamos ser, pois somos humanas e a conta também chega para nós, mães. 


Autora: Viviane Moreira. Insta: @vih.cavalcantem. Medium: medium.com/@LetMeSeeInsideOut.


Este texto foi revisado por Luiza Gandini.

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