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Comprei uma smart tv, 8x sem juros nas Americanas. O tempo que não passo dormindo, enchendo a cara ou trabalhando, eu tô pensando em ver série. Só não vejo mais séries porque quase tudo me dá sono. Com 31 anos eu passei a fumar maconha. Não sempre. Quase sempre me arrependo enquanto tô chapada. Eu cheguei num ponto que odeio muita coisa e muita gente. Só tenho prazer em sexo, jardinagem e séries que não me dão sono. O sexo que tenho nem sempre é bom. As formigas e os pulgões comem minhas plantas e a maioria das séries me dão sono.

Me separei há quase dois anos. Tenho um filho pré-adolescente e autista que tá de férias. Um filho que tem um pai que eu odeio. Odeio aquele homem. Passei quase 11 anos casada e odeio aquele homem. Não porque ele me traiu, nem porque me bateu, nem porque mentiu durante quase 11 anos. Odeio ele porque ele não é um pai. Porque sabe que eu vou suprir o básico e o mais que eu puder ao meu filho. Ele sabe que sou uma mãe foda, mas o meu filho não tem mais um pai. E ele sabe que só, e apenas isso, me machuca. Eu ODEIO aquele homem. Se ele morrer eu não vou sentir nada.

Eu odeio tanto aquele homem. Eu tô no auge da minha vida sexual, eu tenho um TCC pra fazer. Eu penso em sexo um terço do meu dia. Eu tenho que levar meu filho nas terapias. Tenho que regar minhas plantas e cuidar dos meu 17 gatos. Sim, eu exagerei nos gatos, mas eles têm sete vidas e eu não vou abrir mão deles. Então multiplique tudo, 7×17. Tem os cachorros também, e sim, eu abracei mais do que posso carregar.

Já falei que tenho uma casa de 7 cômodos pra manter limpa? Um quintal de 10 metros de comprimento?

Eu trabalho em casa. Costuro, pinto. Eu não bordo. Eu sei bordar. Eu odeio bordar. Eu faço crochê quando tento parar de fumar. Eu fumo. Talvez você não me ache tão foda agora.

Eu transo. Eu gosto de transar. Não sou bonita do tipo “Nossa! Musa do Instagram.” Sou o padrão colorismo. Quase branca demais pra ser negra e muito negra pra ser branca. Cachos. Pouca bunda num quadril largo. Peitos que amamentaram quase três anos. Um metro e sessenta e quatro de complexo de Electra, da pior maneira possível. Pai alcoólatra e mãe narcisista (ou machista), atualmente crente. Minha mãe teve um pai de merda. Eu tive um pai de merda. Meu filho tem um pai de merda. Eu sou a geração Y de uma linhagem de mulheres que criaram os filhos sozinhas e que acabaram sós. Eu sempre quis uma filha. Eu tive um filho. Eu amo meu filho. E eu nunca mais vou parir na minha vida. Eu juro.

Eu vou acabar sozinha.

Eu amo os homens. Eu sou BI. Eu detesto os homens. A única mulher que namorei me trocou por outra com uma vida mais fácil (ou mais simples).

Eu não quero sua pena. Eu não estive por mais de três encontros com ninguém, exceto por ela. Ninguém ficou. Eu não insisti. Eu me recuso a sofrer. Eu vou atropelando os sentimentos. Eu substituo as pessoas que não me querem. Vou fazendo uma pilha de sentimentos. Como os colchões de “A Princesa e a ervilha”. São muitas ervilhas e muitos colchões. Mais ervilhas infelizmente. No momento estou transando com dois caras. Um deles eu conheço há mais de quinze anos e finalmente, após a separação, transamos a cada dois meses (mais ou menos). Ele não tem emprego, é maconheiro e “feministo”. 33 anos. Gosto dele. Mas faz aquele tipo “amo o amor”. Fode bem. Na terceira ele broxa. Muita erva eu acho. O outro? Tem 22. Ensino superior, independente, um sorriso lindo. Mas tem 22. Porra, ele tem 22. Na tabela do amadurecimento perto de mim (e graças ao patriarcado) ele tem 14. É o pau mais grosso que já vi na vida. Mas ele tem 22. Não que isso faça diferença pra ele. Eu sou só uma vagina que tem uma casa. Cruel né? Pois é, eu também acho. Economiza no motel, novinho!

Tenho outros encontros casuais. Casuais demais. Eu já disse que meu ex casou de novo com uma moça de 19? Ele tá na segunda lua de mel enquanto eu crio o filho dele. Massa…

No último ano frequentei um centro espírita, fui num terreiro e numa moça que joga búzios. Voltei pra magia, amo a estética. Olho pra lua, acendo velas e incensos. Mas nunca ligo pros sabaths e esbaths. Nunca tenho o material necessário pros rituais e só me lembro na próxima lua, em cima da hora. Sou uma bruxa fajuta. Fiz um vudu com a cueca do meu ex-marido. Não funcionou. Ele continua fodendo pelo visto. Desgraçado…

Não. Eu não sinto saudades dele. A esposa nova dele é até legal. Me lembra eu, dez anos atrás. Ele vai desgraçar a vida dela também, Deus?

Tomo remédio pra dormir. Mas só tomo quando não tô bêbada, nem chapada.

O psiquiatra do meu filho é um velhinho engraçado e inteligente que tem um crush em mim e me dá receitas e amostras grátis de remédios. Tô com uma tosse de fumante… Óbvio.

Um dos pontos desse textão todo é: eu tô deprimida?

Eu sou digna de ser amada?

É melhor ficar sozinha?

Sem clichês por favor…

Eu sou um poço de exigências. Sou de esquerda (to the left, to the left), socialista graças a Deus, mas sem muita esperança… Nesse fim de semana encontrei um cara que conheci na oficina mecânica. Um gato. Tipo meu ébano da Alcione. Ele me chamou na casa dele. Uma festa de São João. Me apresentou aos amigos, me deu atenção e cerveja. Me levou num tour pela casa dele, no quintal me deu uns amassos tipo adolescente. Eu pensei: obrigado Deusa, alguém me quer de verdade. Ele era só elogios. Cerveja vai, cachaça mineira vem, amigo chega, amigo sai, e eu gamada no gatão mecânico multitarefas. Eu não poderia querer nada mais do que aquele homem de mãos enormes. Do meio pro fim, depois da briga de um amigo dele com a esposa, entramos num papo de relacionamentos. Ele me chega com a máxima tinderniana de que não quer compromisso. OK. Posso viver com isso. Esse homem casualmente na minha cama já seria de bom tamanho, mas ele começou a me falar de uma rede de amigos. Amigos de confiança que faziam orgias ocasionais.

Eu já falei da cachaça mineira? Então… Eu caguei tudo. Um amigo pra quem eu não olharia duas vezes. Legalzinho. Mas eu não daria atenção na sobriedade. Em resumo? Acabei na cama com os dois. Sabe aquilo de pedir mais do que recebeu? Eu nem lembro. Pouquíssimos detalhes me veem à mente. Minha carência estragou o rolê, nem lembro se gozei, provavelmente não. Mas lembro deles pedindo meu consentimento até pra beber água. Eu lembro. Perdi o “Meu ébano”. Não consigo mais conversar com ele. O amigo? Não. Não quero nem lembrar o nome. Eu vou mudar de oficina. Eu estrago tudo.

Este é um relato anônimo.

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