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A lua que estava fora, no céu, minguava. A lua que está dentro, de mim, era igualmente minguante. Na lua minguante a seiva das plantas (e do que é vivo) desce. É hora de plantar tudo aquilo que dá (cresce) em baixo da terra. É, aqui, na terra que se encontra a energia criativa, a potência da vida. Na lua minguante a seiva da vida desce em mim, sangro. 

É tempo de introspecção, de silêncio que, às vezes, é cortado pelo grito e choro da criança (o que pode irritar e exigir a paciência que nesses tempos é menor). É tempo de solidão. É daqui que escrevo, agora, sobre a solidão materna. 

A solidão que está no cuidar do outro e a solidão no sentido de estar a sós com nós mesmas. Enquanto a solidão no cuidado da criança pode desassossegar, o estar a sós com nós mesmas pode ser profundo.

Há um provérbio que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Se isso é verdade, então, é gigante a responsabilidade que temos quando estamos solo na criação e educação da criança. 

É preciso uma aldeia inteira para partilhar dos cuidados com a criança, mas na solidão é preciso dar conta de tudo: atender as suas necessidades, respeitar seus ritmos e tempo, ter empatia diante da sua imaturidade emocional, permitir que seu desenvolvimento seja o mais natural possível. 

Na solidão somos responsáveis pela ordem e equilíbrio do ambiente, pela alimentação equilibrada, pelo tempo de qualidade, pelo limite de tempo de exposição às telas, pela alfabetização, pelos dentes escovados, pela quantidade adequada de sono … 

Enfim, sozinhas, somos responsáveis pela criança, pela casa, pela economia doméstica, pela educação, por nós mesmas, afinal não podemos esquecer que além de mãe há outros lados, outras dimensões (emocional, mental, amor próprio) que precisam ser cuidadas e cultivadas.

São tantas as exigências que, na verdade, não é nada estranho se vivemos, na maternidade solo, desassossego, inquietação e cansaço tanto físico quanto mental.

Mas, a solidão materna, também tem outro lado. Nela podemos entrar em contato mais intimamente com nós mesmas, com aquilo que somos, com nossos ciclos, com nossas escolhas, enfim, com a nossa existência no mundo (com a vida que vivemos). 

A solidão nos dá a oportunidade do reencontro de nós com nós mesmas, com isso quero dizer, com os nossos talentos (dons), com as nossas capacidades e com o medo. Quando vivemos a solidão materna podemos nos conhecer mais e melhor e assim crescer. 

Crescer, no entanto, não é buscar a perfeição. Na solidão não precisamos buscar ser a mãe perfeita, mas somente reconhecer nossas imperfeições e assumi-las (aceitá-las) ao educar a criança. Essa é a solidão materna profunda: aquela que nos faz olhar para si, conhecer-se, e, finalmente, crescer (expandir-se) como humana, mãe, educadora, mulher, sagrada.

O fato curioso é que a solidão materna seja como cuidado tanto quanto em seu sentido mais profundo acontece quando, de fato, estamos sozinhas e, igualmente, quando nos encontramos em meio aos outros.

Ou seja, mesmo vivendo com outra pessoa podemos nos sentir sozinhas no cuidado com a criança (filho) e, do mesmo modo, mesmo convivendo com outras pessoas podemos nos sentir sozinhas e entregues a nós mesmas. 

Portanto, a solidão que se sente dentro não necessariamente acontece do lado de fora pois mesmo rodeado pelos outros podemos nos sentir sós. O decisivo é encontrar a paz na solidão seja ela de que tipo for e isso faz a toda diferença. 

Na solidão nós descobrimos nossa força e compreendemos que nos bastamos a nós mesmas. Se vivemos bem e em paz a solidão, então, certamente, estamos prontos para construir uma relação mais intima, autêntica e profunda com quem está do lado de fora.


Autora: Tatiana Betanin, educadora e mãe. Praticante de yôga e meditação. Formada em filosofia. Educadora montessori. Compartilho um pouco do trabalho no @maternidadeeautoconhecimento

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