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A solidão da maternidade começou quando eu esperei por quatro horas sozinha o resultado do teste de gravidez. Quando vi meu mundo ser torcido com um “Parabéns” que eu não me sentia felicitada. Hoje o tempo todo é discutido sobre esse tal bicho de sete cabeças chamado solidão, mas a gente só sente de verdade quando vive, quando o conceito se põe em prática na nossa vida.

Somos as culpadas, as loucas de não conseguirmos amamentar enquanto fazemos as unhas e o cabelo, loucas de amarmos nossos bebês mas odiarmos ser mães.
A solidão é sentida quando alguém iniciando uma conversa com você não pergunta mais como você está, e sim como o seu bebê, que nem nasceu, que nem tem ouvidos ainda está. Você se torna invisível para a sociedade.
Sofre com o patriarcalismo, com pessoas que não querem se relacionar com você porque te vêem como usada, larga, aberta, como se você escorresse o gozo que te engravidou pela pele dia e noite. “Eu não quero ser pai ainda”, a gente ouve, mas não faz convite, você não quer um pai pro seu bebê, porque isso ele já tem, e se não tiver ok, tá muito bem sem. Você quer uma conversa boa, falar sobre o último show do Caetano, sobre Maduro e a Venezuela, você quer rir, ouvir e depois gemer o alfabeto inteiro. Não um pai pro seu filho, mas um companheiro para você. Ou você só quer sexo mesmo, e ok porque ainda somos mulheres.
As pessoas por suas “experiências” dizem que será difícil, que neném dá trabalho, que sua vida muda e etc, não oferecem ajuda, apoio, conforto. E a hipocrisia do mundo não me surpreendia tanto quanto a que vejo de outras mães que por mais que seja difícil para elas também, ainda tiram um tempo de apontar e julgar e não de abraçar, se unir e lutar contra esse machismo e essa solidão que nos cerca a partir do momento em que um pouquinho de sangue e um resultado positivo mudam nossas vidas inteiras.
Uma caralhada de “Você não pode” para escassos “o que posso fazer para te ajudar”? E olha que até essas listas idiotas do buzzfeed de “cozinhe para uma mãe recente”, “fique com o bebê por um tempo para ela tomar banho”, são extremamente eficazes, porque ninguém quer dar a cria para outro e só ficar na hora que estiver cheirosinho, amamentado e limpinho, quem faz isso é homem. A gente só quer um tempinho, uma mão, um cafune até dormirmos.
A sociedade por não ter nos permitido abortar, começa abortar a gente. Tem lugar que criança não entra, que se entra já olham torto, não tem uma calçada descente para andar com o carrinho de bebê, não tem assistência, psicólogo para as mulheres com depressão pré e pós parto. Não tem alguém para lavar uma louça sequer quando estamos enjoadas, com cólicas, azia, dor de estômago, nas costas, e nos setenta e tantos sintomas que sofremos nos nove meses de gestação.
Não somos parabenizadas por fazermos o trabalho mais difícil do mundo: formar cidadãos. Preparamos seres ativos para a manutenção do sistema capitalista que vivemos e ainda somos obrigadas a ouvir listas de congratulações para os homens que “ajudam as mulheres”, porque é um fato grego um ser humano com dois braços, duas pernas, sistema nervoso e cérebro perfeitos conseguir organizar uma casa, levar um filho pra escola, fazer uma comida.
A gente fica cansada, esquecemos de quem nós somos porque somos obrigadas a mudar nossos nomes para “mãe” e sei que muita gente ainda me julgará por esse texto falando que sou ingrata, que estava esperando um mar de rosas, que ser mãe é exatamente assim.
E eu lamento por isso. Lamento por ainda existirem mulheres que vejam o sacrifício como única possibilidade, que pegam a cruz que carregam com orgulho, como um presente. Como um escravo que exibe o chicote que o açoita com orgulho. Quero um mundo de mães de luta, que não se contentam, que gritam e fazem escândalo para as desumanidades que vivemos, desde violência obstétrica até o cansado das noites sem dormir. Quero sim que sejamos reconhecidas por nosso esforço, quero mais rodas de conversa, mais projetos no senado de assistência às mulheres que são e se tornarão mães, quero ver trocador nos banheiros masculinos.
Mas acima de tudo, quero acabar com essa solidão no meio de 7 bilhões de pessoas só porque decidi ser mãe.
Autora: Layla Barbosa

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