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Quando engravidei da Giovanna não tinha uma opinião tão formada sobre tipos de partos, mas a minha tendência era por cesárea, pois na época trabalhava em centro cirúrgico, então sabia muito bem como era a dinâmica, era algo que eu conhecia e me trazia segurança. Encontrei uma médica (amiga da minha irmã) que acompanhou minha gestação, ela ao contrário de muitos médicos, me deixou muito livre naquilo que queria.

A gestação com a graça de Deus ocorreu tudo bem, só que quando estava com 37 semanas já não aguentava mais, estava super ansiosa, inchada e queria logo ver a cara da Gigi e então decidimos marcar. Meu marido apoiou, a agenda da médica estava liberada, queria o parto com todo glamour que eu podia naquele tempo, assim nasceu Giovanna com 38 semanas, no dia 15.01.2015 às 11h26 da manhã, em um hospital top, com direito a toda família e amigos vendo para comemorar aquele momento, sensação única, e a partir daquele dia nasceu uma mãe, um pai, novos sentimentos e maneiras novas de se pensar em relação a filhos.

Dois anos e quatro meses depois do nascimento da Gigi, descobri que estava grávida da Manuella, quanta felicidade, estávamos vivendo um tempo novo na nossa família, muitas coisas haviam mudado, principalmente meu pensamento em relação a parto, estava decidida pelo parto normal (meu marido sempre me apoiou nessas decisões), então ele também queria muito viver este momento. A mesma médica, mais uma vez, nos acompanhou no pré-natal. Tudo evoluiu bem, porém quando estávamos com 37 semanas nossa médica teve que se afastar por um problema familiar e, como estávamos na espera do parto normal, comecei a passar pelo PS obstétrico do hospital. Queria muito viver o parto normal, então pra mim não me importava estar passando nessa altura do campeonato no hospital com outros médicos. Cheguei a 39 semanas e nenhum sinal de nada da Manuella, sem dilatação, apenas com contrações de treinamento, então comecei a ir de 2 em 2 dias no hospital. Chegamos a 40 semanas e nada da Manuella, sem dilatação, sem nenhum sinal.

“Vamos ter que internar!”

“Sério? Quais são as minhas opções?”

“Olha, como você já tem uma cesárea, ou marcamos agora uma nova cesárea ou então podemos tentar induzir o parto por meio da sonda. E aí, mãezinha??”, disse a médica. Eu e o meu marido saímos de casa dispostos a viver a experiência do parto normal se assim Deus quisesse. “Doutora, vamos induzir”, respondemos confiantes. Mas não tínhamos ideia do que iríamos viver naquela noite, ninguém nos contou. Internou eu, meu marido e minha amiga enfermeira obstétrica Camila. Subimos felizes para o Centro Obstétrico, colocaram a sonda para ajudar a dilatar. Comecei a ter contrações naturais, bem espaçadas. E lá vem a Camila: “Vamos lá minha irmã, agacha, levanta, reza, anda, tira foto, olha a selfie…” A médica do plantão retorna e me avisa que eu iria para o quarto esperar a sonda “cair” naturalmente, pois quando isso acontecesse estaríamos meio caminho andado para o nosso esperado parto. Fomos para o quarto, as contrações começaram a ficar menos espaçadas. Vamos lá, tenho que andar, agachar, levantar, não desanima, foco!!! Às 19 horas, depois de 3 horas com a sonda, ela caiu… “Meu Deus, é agora??? Chama a enfermeira, amor! A Manuella vai nascer.” Só que não! Subimos para o centro obstétrico e iniciou a sessão dos toques. “Olha mãezinha estamos com 4 de dilatação. Vamos iniciar com ocitocina para ajudar na evolução do parto.”

Veio a tal ocitocina e então comecei a entender o que viveria aquela noite. Veio a primeira contração: “beleza, vai dar certo, vou aguentar.” E aí, a partir das 20 horas, comecei a ter contração provocada pela ocitocina de 3 em 3 minutos. Senta na bola, sai da bola, agacha, levanta, marido faz massagem nas costas. Primeira hora, ok! Lá vem o toque mais uma vez, 5 dedos de dilatação, “Só 5, doutora???” Meio caminho, vamos lá falta pouco. Água quente, toma banho, deixa cair nas costas… Meia noite… Seis de dilatação. Ufa, vamos lá! Contração de 3 em 3, uma dor insuportável, parecia que ia abrir minhas costas na hora que vinha a contração. Três da manhã, lá vem o toque, 6 de dilatação.

“Como assim?? Não evoluiu??”

“É assim mesmo mãezinha. Vamos continuar.”

Naquele momento, hora da misericórdia, comecei a entregar toda a dor que eu estava sentindo para Jesus, comecei a conversar com a Manuella, pedindo para que ela viesse. A dor era grande, ali naquele momento já não tinha mais máscaras entre eu e o meu marido. Era eu na minha essência e com o meu jeito de ser, gritando de dor, chorando, no meu limite e meu marido com toda paciência e amor, ao meu lado o tempo todo, fazendo massagem nas minhas costas quando vinha a contração. “Tô com você, meu amor, falta pouco.” Palavras doces que iam me acalmando e me incentivando a permanecer firme. Cinco da manhã, 6 de dilatação, estacionou.

“Doutora, não vai mais dar certo, né?”

“Vamos aguardar, mãezinha.”

Eu já não sabia quem eu era naquele momento, já não conseguia ir para o chuveiro, nem pra bola, nem agachar, nem levantar, só conseguia ficar deitada e gemendo de dor na contração. Naquele momento eu só queria que algo extraordinário acontecesse. Seis da manhã, troca de plantão, e então surgem dois médicos mais velhos para me ver. “Mãezinha, vou fazer o toque durante a contração para vermos se está tendo evolução.” Foi o toque mais horrível da minha vida, em meio a contrações.

“Olha só, não está tendo evolução. A neném está alta, vamos fazer um cardiotoco para ver como ela está.

“Tudo bem, doutora. Faça o que for melhor.”

Cinco minutos de exame, batimentos da Manuella estava em 90, então chega a doutora e pede para preparar a sala, pois iríamos para uma cesárea de emergência. Manuella estava em sofrimento fetal. Até aquele exato momento aquela dor tinha um sentido para mim, pois queria viver a beleza do parto normal, mas quando me dei conta que estava indo para cesárea, fui tomada por um sentimento horrível e comecei a negar aquela dor. Rejeitar aquela dor da contração que não fazia mais sentido pra mim, eu estava exausta, eu não aguentava mais, estava fraca, queria arrancar aquele acesso de mim pra aquela ocitocina não entrar mais nas minhas veias, queria que aquela dor parasse de qualquer jeito.

“Tira isso de mim, por favor, não quero mais.” Entrei na sala de parto, anestesia, sonda, campos cirúrgicos… “Amor, me desculpa, não consegui!” Ali meu marido se sentou ao meu lado, me deu um beijo e me acalmou… Nasceu a Manuella, eu estava perdida no tempo e espaço. Na hora não conseguir contemplar o nascimento da minha filha, só quando me trouxeram a segunda vez que entendi que ela tinha nascido, beijei ela, eu e o meu marido choramos. “Ufa, acabou. Ela nasceu bem, graças a Deus.” Manuella nasceu dia 08.02.2018 às 7h40 da manhã com 3.740kg e 47 cm.

Aquela madrugada ficou marcada, não só pelo nascimento dela, mas por tudo que passamos. Eu tinha 2 opções: ficar com o sentimento de negação e trauma ou de contemplar a beleza da minha entrega por aquela vida que veio ao mundo. De primeiro momento fiquei com a negação, com o trauma da dor. Cada banho que eu tomava, quando a água quente batia nas minhas costas, eram lágrimas que escorriam dos meus olhos, era como se eu tivesse vivendo aquela dor novamente. Isso durou por um mês, eu não conseguia conversar com ninguém sobre este sentimento e não suportava ninguém falar perto de mim que tinha conseguido o parto normal.

Foram dias difíceis, misturados com todos os hormônios do pós parto e do novo lidar com duas crianças. Logo depois começou meu processo de olhar além, de entender que existia beleza através daquele trauma que foi gerado. 

Pois bem, comecei então a entender o quanto aquela noite me fez ser uma mulher mais forte, o quanto eu e o meu marido nos unimos mais porque ali nós tocamos a essência um do outro, nos conhecemos por inteiro, sem máscaras, sem nada, e isso fez com que nosso amor se tornasse muito mais sólido. Ali naquela noite nasceu uma mãe muito mais dócil e com sentimento de gratidão pela beleza da vida e enfim agora de fato tenho uma opinião sobre parto. Não importa se é cesárea, normal ou humanizado, o que importa é a sua entrega para aquele momento onde a maior graça vai acontecer: a beleza de uma vida que vai nascer, que naquele momento seja feito o que for melhor para mãe e para o bebê. 

Que não vale a pena julgar quem fez assim ou assado, pois ninguém sabe o que cada um viveu ou passou para tomar algumas decisões em relação ao nascimento de cada filho. Esse é o meu relato de parto, podia ter sido diferente? Talvez sim, mas acredito que precisei passar por esta experiência para que de fato eu pudesse me tornar uma mulher nova, uma mãe e uma esposa melhor!


Autora: Me chamo Christianne Marcelino, missionária da Comunidade Católica Instrumento de Deus, casada há 8 anos, mãe de 3 princesas: Giovanna (5 anos), Manuella (2 anos) e Luanna (10 meses). Sou muito feliz e realizada!

3 COMENTÁRIOS

  1. Que linda reflexão, você pôde ressignificar e entender quanta lição essa experiência lhe trouxe, principalmente quando escreve, trazendo a luz tudo isso. Parabéns pela mãe e mulher que tem se tornado a cada dia. Deus cuida de você em cada passo e em todos seus desafios!

  2. Pra quem tava do lado de fora sem saber o que tava acontecendo não foi tão poético kkkk noite mais longa e tensa da vida. Graças a Deus deu tudo certo e contribuiu para ressignificar conceitos.

  3. Como sempre sua maneira de expressar sobre as situações difíceis da vida, torna mais doce e leve. Assim é você mãe, amiga e irmã.

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