Mulheres-mães protagonistas da própria história

Escritos durante o cochilo 

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Por Roberta Santiago | @roberta_santiago

Meu filho finalmente dormiu e eu hesitei entre escrever e lavar o banheiro. Fui lavar o banheiro e agora ando capenga de inspiração. É autorizado escrever sobre a rotina? Qual é a fantasia instaurada na tentativa de purpurinar a rotina? 

Acho que ando envelhecendo, pois passei a gostar de horários para as coisas e fronha na mesma estampa do lençol. Antes eu nem sabia o significado da palavra fronha. Meu avô falou que estou cheia de cabelos brancos. Mas é bonito. Está tudo bem.  

Mesmo após noites como essas nas quais ainda acordo quase dez vezes e me pergunto se passei mais tempo desperta ou dormindo. “São dentes chegando”, “ele não estava com frio?”, “é o apego”, “é a cama”, “por que será que um bebê de quase 1 ano e 4 meses ainda acorda assim?”, “é seu peito!”. É cansativo viver sempre com um porquê de estimação. 

Às vezes abrir mão das minhas investigações é o maior presente que posso me dar. Aprender a aceitar. Aceitar. Ufa! Está mesmo tudo bem. Eu acolho o meu cansaço. Meu filho não falta de alegria e curiosidade para descobrir o mundo. É um mar de amor lhe envolve. Está mesmo tudo bem. Preciso cortar minhas unhas antes que ele acorde.  

A máquina está cheia de roupas molhadas. O varal também. Como vou fazer? Preciso tomar um banho antes que ele acorde. Já não sei se meus pelos da perna e do sovaco materializam alguma reivindicação feminista ou se ficam por lá porque tirá-los não é a prioridade. Ainda é ok reivindicar? Mesmo sendo privilegiada? Quantos metros tem meu privilégio? Quantos metros têm os meus pelos? 

Sou péssima com redes sociais. É tudo meio frio por aqui, não? Meu filho aprendeu a falar “aqui” hoje. Pra que serve o story? Preciso colocar meia pra mutuca não me picar. Minhas unhas estão pretas de terra. Será que ainda dá tempo de cortar? Que ideia vir morar na mata e querer publicar um livro. Publicar outro livro pra quê? Por que larguei a faculdade quase no fim? Será que eu sei escrever? Não posso dizer que sou formada em nada quando me pedem uma mini-bio.  

Será que há algum glamour nisso? Vamos fingir que também é reivindicação a minha fuga da academia. Sai mutuca. Se eu fico tentando matar a mutuca, vou acordar meu filho. Ele acordou.  

Revisado por: Gisele Sertão – @afagodemaeoficial 

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