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Não quero falar da exaustão materna, da casa por limpar, dos brinquedos espalhados, da louça na pia. Do grito dado, do choro contido, do cansaço. Do home office e das aulas remotas das crianças. Quero falar do desejo que todo esse contexto vem encobrir. 

Quero falar dos seus olhos brilhando quando você abre um livro devagar e sente o cheiro das palavras. Quando se permite e demora o olhar no horizonte, ou a lua no intervalo entre as mamadas. Quando se atreve a tomar um banho demorado mesmo com as vozes fantasmas chamando “mamãe”.

Falo de um desejo dividido, entre o olhar ávido do filho e do seu próprio no espelho a exigir. Do corpo que pede uma noite de sono inteirinha e, ao mesmo tempo, pede outro corpo entrelaçado no seu, lembrando que há uma mulher viva e sedenta. Não estou falando do Puerpério, mas do espaço entre o fim dele e o começo da sua inteireza que nunca chega.

Falo da proposta de trabalho recusada, da caminhada ou do crossfit – que era um respiro na lista de tarefas e compromissos – e que você nunca retomou. Falo da irritação, do chilique encenados com os filhos na dificuldade em separar o cansaço da maternidade e da mulher exigente que grita dentro de você. Falo daquilo que você nunca foi e nem terá sido.

Falo de mudança, de movimento, de onda e de mar. Deixe vir, deixe que suas águas abissais transbordem. Sinta a raiva, a agressividade, ela te dará a força necessária para ter coragem para se responsabilizar por suas dores e delícias. Tem muita luta aqui fora, mas não há patriarcado, misoginia e preconceito mais forte do que uma mulher que sabe quem se é.


Autora: Isabelle Maurutto – Mãe do Caê e das gêmeas Lis e Ivy. Amante da escrita. Psicóloga e Psicanalista em constante movimento.

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