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Saí do banho e me deparei com o caos no inferno dentro de uma sala: você gritando – GRITANDO, não chorando, reclamando ou resmungando. GRITANDO por causa de alguma coisa que eu não conseguia entender porque você estava gritando. Na TV o ministro, esse sim muito calmo e centrado anunciava 16 mil. Meu computador apitava insistentemente a cada uma das 67 mensagens não lidas e não tinha sobrado comida do almoço para comermos no jantar.

Deixei o inferno na sala, peguei você no colo e o levei para o quarto. Você chorava sentido, se debatia e com esforço sentei você de frente para mim. E pela primeira vez na vida você me viu chorar. Pela primeira vez na vida não segurei o choro na sua frente, o escondi ou saí furtivamente para fazê-lo no banheiro. Apenas deixei que ele viesse, e que você visse.  Choramos, juntos, pela primeira vez na vida.

Lembro-me da primeira vez que vi minha mãe chorar. Ela nunca chorava. Nem quando batia o joelho, perdia no jogo de cartas ou ficava muito nervosa com a bagunça. Até que ela perdeu seu pai, e naquele sábado de manhã, 18 de dezembro de 1983, eu a vi chorar pela primeira vez. A sensação de que minha mãe não era imune ao choro foi assustadora e libertadora ao mesmo tempo. Assustadora pois ela deixou ali de ser a supermãe, a que nunca chorava. Libertadora porque se tornou apenas minha mãe, do tipo gente, que chorava também. E se ela podia… então eu poderia ainda mais.

Quando você se deu conta do que estava acontecendo vi o espanto nos seus olhos. E senti que talvez estivesse perdendo ali meus superpoderes. E sinceramente? Já não era sem tempo, filho. Aqui em casa não temos espaço para super qualquer coisa, ainda mais nesses tempos sombrios. Abri mão de bom grado. E esperei seu choro mais intenso, libertado pela sua consciência da minha humanidade.

Mas ele não veio. O que veio foi a pergunta à queima roupa:

– Você está triste por que as pessoas estão morrendo?

Tentei disfarçar o desconforto e explicar sem muitos detalhes, já pressentindo a ansiedade e angústia que poderia causar em você com a minha resposta:

-Também Theo. Por isso e por tantas outras coisas. São dias difíceis filho, é só isso.

Respondi e fiquei de olho em você, tentando medir sua respiração, a dilatação das suas pupilas, as gotículas de suor saindo dos seus poros. Tentei mensurar o tamanho do estrago feito, já arrependida até o último fio de cabelo por ter chorado. Você então se levantou em silêncio, foi ao banheiro e pegou um quadradinho de papel higiênico. Secou minhas lágrimas, colocou suas mãozinhas no meu rosto, me deu um tapinha nas costas e falou com uma voz zen budista:

– Vai ficar tudo bem mamãe, não se preocupe.  Tudo vai voltar logo ao normal, você vai ver.

E eu? Fiz a única coisa que poderia ter feito: desandei a chorar. Agora sem pudor nem preconceito, me deitei no seu colo e chorei de soluçar. Você, assumindo o papel de equilibrado da relação passava suas mãos no meu cabelo, do mesmo jeito que eu fiz com você por tantas vezes. Seu pai entrou no quarto, olhou e saiu. Fez bem, ali era entre mim e você. Quando me acalmei você sorriu e perguntou se agora finalmente podíamos pegar uns Pokemons. E quem era eu para negar qualquer coisa a você né? Voltamos para a sala, agora em silêncio. A TV estava desligada e seu pai estava preparando o jantar. Tudo quase normal.

Espero que você se lembre desse dia, Theo. O dia em que me tornei somente sua mãe, aquela que além de ficar brava, com fome ou sono também chora de vez em quando. E que se preocupa com você mais do que com qualquer outra coisa nesse mundo, mas que também vê em você um porto seguro, um alento e um colo nos momentos muito difíceis ou nesses dias quase normais.

Vai passar, filho, eu sei. Você tem razão.                 

Eu acredito em você. 


Autora: Meu nome é Fernanda Morishita, sou curitibana, arquiteta, mãe do Theo. Sempre gostei de escrever, mas nunca tive um propósito. Quando o Theo nasceu senti uma vontade enorme de registrar a nossa vida, nossa rotina, minhas aflições e o que se passava no mundo enquanto ele nem sonhava com a Copa do Mundo ou eleições presidenciais. Mas mais do que relatos da nossa vida o que eu escrevo são as minhas confissões e a minha versão da história, para que um dia ele possa enxergar a nossa vida através do meu olhar. Para me entender, e se necessário (e será…) me perdoar.

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