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Ter duas filhas tem me ensinado muito sobre a singularidade das relações. Para cada pessoa que nos conectamos com profundidade existe um fio carregado de emoções, único para cada vínculo firmado. Nós, todos os seres humanos, nascemos de um fio, o cordão umbilical. Nosso primeiro fio, materializado. Por ele passou o alimento, o sangue, o oxigênio, o sentimento, a vida. Depois que o cordão é cortado, a relação mãe e bebê se dá por um fio invisível. E esse bebê passa a construir novos fios, com novas pessoas, pai, tia, avó, irmão… 

São muitas possibilidades de fios, de diferentes cores, cheiros, texturas, sons, movimentos. Pode ser grosso, fino, colorido, monocromático, leve, pesado. Fios que esticam, laceiam, vão, voltam, não voltam. Fios difíceis de moldar, resistentes. Macios, levinhos ou fios que abraçam.  

Pensando nas relações mais intensas que tenho, que são com minhas filhas, tentei construir a imagem do fio que me liga a elas. Qual a cor, aroma, sabor, peso do fio que me liga à minha filha mais velha? Pesado, molhado, ondular, espinhoso, colorido, quente, borbulhante, firme, intenso. Somos tão diferentes, às vezes a explosão é inevitável.  E o fio que liga à minha filha mais nova? Pode ser leve, livre, sereno, macio, divertido, aconchegante. Temos uma fluidez no viver, uma afinidade que é só, e toda nossa. E claro, não será assim para sempre, os fios são mutáveis, transformam-se conforme os vínculos amadurecem. 

Olhar para todos esses fios que produzimos e entender que os criamos e somos responsáveis pela sua forma pode ser parte de um processo potente de autoconhecimento e transformação. Ele é meu, mas não só meu, é do outro também. Porém, sendo meu, posso interferir e modificá-lo. 

Raiva, angústia, medo, insegurança, alegria, amor, respeito, tudo o que passa por esse fio vai e volta, faz parte dos dois lados das pontas do fio, mas o que ele provoca em mim, é meu, está dentro de mim. É preciso fazer um mergulho interno, acessar minha história, relações, travas e superações para compreender e modificar, se necessário. 

Somos formados por todos esses fios, que entre eles se entrelaçam, enroscam, quebram, equilibram e podem modificar-se, esconder-se, reverberar, são vida, movimento, combinações únicas. 

Para infinitos fios únicos, ligados a outros infinitos únicos fios, não existe roteiro, manual, regra, pois há subjetividades, particularidades e explosões irreplicáveis. É vivendo que se aprende, é na intuição que se guia. No fio passa a vida em movimento. Passa o movimento da vida. É a troca eterna de um para outro. 

Eu e você, e nosso fio. Você e eu, e outro fio. Eu e ele, e mais um fio. Ele e eu, e mais outro fio. Corpos num emaranhado de fios que se nutrem, fortalecem, às vezes se enroscam, e até quebram. Fios que transformam. Fios que formam a forma do fio. Que tenhamos sensibilidade e sabedoria para olhar e cuidar das nossas relações, dos nossos fios. 

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