Mulheres-mães protagonistas da própria história

COLUNA | Mulher como controladora e a saga de administrar a vida sozinha

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“Nossa, como você é controladora!”

Se você já ouviu e, pior ainda, acreditou nisso — especialmente de um homem -, quero te avisar que essa é a pior mentira que o machismo inventou!

Eu sou capaz até de supor quando você escutou essa acusação. Provavelmente, após uma discussão sobre a divisão de tarefas, naquele momento em que você está cansada de tomar iniciativa, pela ausência de movimentação do parceiro. Suas argumentações são que se sente sozinha e, que se parar, a casa, o projeto, a família, a vida não anda!

Seu companheiro vai discordar e afirmar que o problema não é ele, mas como as coisas são conduzidas. Vai rebater dizendo que você inventou tomar a frente de tudo e não deu espaço para ele agir, afinal você não tem paciência suficiente para entender o ritmo dele. Ele fecha seu drama com a fatídica frase: “Além disso, você é controladora. Tudo precisa ser do seu jeito!”.

Após isso, a culpa e raiva já tomaram conta da sua mente e, sentindo-se mega derrotada, você considera que ele está certo e começa a ajustar seu comportamento para “facilitar” a vida dele (descobri recentemente que isso se chama adestramento, ou a forma do homem criar situações para que você se ajuste a ele e as suas demandas).

Se identificou? Não é por menos… O machismo é um sistema tão chulo e superficial que a tendência é que os comportamentos e falas sejam extremamente repetitivos. São as mesmas desculpas, com tentativas de invalidar suas reivindicações sinceras para reconfigurar a dinâmica da relação.

Mas, quero te trazer uma boa notícia. Você não é controladora! Acredite em mim, você está apenas tentando administrar o fluxo natural e incessante de tarefas que a vida exige, com toda a sua capacidade e inteligência — e graças ao infeliz condicionamento a qual estamos submetidas de estar 24h atentas às necessidades dos outros.

Por outro lado, os homens são treinados a pedir, exigir e, claro, receber. Eles têm liberdade para escolher quais demandas priorizar sem serem julgados, utilizando como maior argumento um certa inabilidade. Sabe aquela coisa masculina de prometer que vai cumprir e ainda fazer mal feito? Você reclama, mas ele diz que fez seu melhor e que você não consegue aceitar as coisas de uma forma diferente. Será? Eu tenho certeza que não.

Vou agora ilustrar isso com um exemplo bem prático da minha vida. De fato, foram muitas situações, mas vou escolher uma a dedo:

Eu já estava separada, mas ainda convivia na mesma casa com meu ex-marido. Fazia pouco tempo que eu trabalhava em um restaurante e ele ficou encarregado de preparar o menino para escola, que na época tinha 3 anos.

Ele estava em uma escola longe de casa e a coordenadora do local ofereceu carona, já que éramos vizinhos. Ela apenas pediu que fossemos pontuais, entregando a criança todos os dias às 07h30, quando ela chegasse no portão de casa. Nessa época, eu já estava atenta às mentiras e argumentos que ouvi por anos e comecei a colocar em prática a ideia de não ser a “controladora”. Parei de lembrar e avisar o pai de qualquer coisa. Considerando isso, o que você acha que aconteceu?

Eu saia de casa às 06h30 e sempre ouvia o alarme do celular dele tocar. Ele desligava e voltava a dormir. Eu seguia plena ao meu trabalho. Dias depois, a coordenadora veio reclamar comigo que a criança estava atrasando até dez minutos para chegar no carro. Algumas vezes sem tomar banho e sem comer(!). O pai chegava a colocar uma vasilha com frutas no colo da criança que, na primeira curva, caía no chão do carro, fazendo o menino abrir um berreiro e a coordenadora ter que parar o veículo para acalmá-lo.

Essa era a primeira escola dele. Primeira vez que ele ficava em um carro com um estranho. Ele ainda chorava quando estava na escola e se irritava com as normas e regras. A cabeça da criança estava um turbilhão e essa situação só piorava o quadro. Talvez alguém argumente que era normal o pai perder a hora algumas vezes por cansaço, mas, ele trabalhava de duas a três horas por dia. Além disso, eu já vi ele acordar tranquilamente às três da madrugada para outros compromissos.

Essa situação apresenta bem o ciclo do tal “controle”. Acontece assim: a pessoa se isenta de agir ou é irresponsável → isso leva a consequências negativas que prejudicam você ou alguém importante para você → você reclama com a pessoa → o outro lado aceita que errou, mas, argumenta que você precisa aprender a ser mais tolerante e solta a máxima: “você é controladora” → você se sente mal e desiste de comentar sobre o assunto → o outro pensa que você entendeu e repete esse comportamento por diversas vezes. Outro possível desfecho da situação seria você desistir da participação do outro e assumir a atividade para si, já que não quer brigar de novo.

E foi o que cogitei fazer, afinal, ver meu filho daquele jeito mexia muito comigo, me deixava extremamente mal. Pensei em pedir a minha chefe para chegar um pouco mais tarde, pois eu mesma iria preparar meu filho para escola, já que estaria acordada naquele horário. No entanto, isso seria mais uma carga de tarefas que eu teria que acatar, e que provavelmente me deixaria estressada, fazendo com que brigasse com meu ex de novo.

E aí ele reforçaria ainda mais a ideia de que eu sou controladora, apontando que no lugar de esperar sua adaptação ao horário de escola da criança, eu quis tomar o problema para mim e agora estava sobrecarregada por culpa própria. Se reconhecem nisso?

Enfim, se mesmo depois de eu te explicar tudo isso, você ainda acha que é muito controladora, tudo bem. Recomendo que faça uma terapia com um bom profissional. Eu fiz isso, sabia? Mesmo entendendo, aos poucos, que não fazia sentido esse ciclo, o sentimento de culpa era tão grande que fui à terapia saber se eu era a pessoa controladora.

No final, descobri que não! Eu não sou controladora. Pelo contrário, sou muito sistemática, organizada, determinada em tudo o que faço. O sofrimento pelo controle me atrapalha quando meus picos de ansiedade estão altos. Tratando a ansiedade, através principalmente do estabelecimento de limites, eu ficaria bem.

E quais eram os meus limites? Não ficar sobrecarregada do gerenciamento mental das atividades rotineiras, não assumir o erro dos outros, cortar contato com pessoas que distorcem fatos a seu favor, não comprometer meus objetivos pela inabilidade do outrem se dedicar ao autoconhecimento e a melhoria pessoal.

Escolhi usar um tom bem direto e confessional nesse texto. Tanto que não utilizei referências diretas ou indiretas para validar meus argumentos. Fiz isso porque meu foco é alcançar mulheres que se sentem mal por ouvirem essa mentira do controle e duvidam do que entendem sobre si mesmas. Quero que essas palavras lhes tragam fôlego e esperança.

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