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No último 31 de julho foi comemorado o Dia Internacional do Orgasmo. É, isso mesmo. Uma data para lembrarmos daquele que é o clímax do prazer sexual, o ponto mais alto de receber e se dar prazer. Me permito, aqui, incluir uma nota: prazer físico e também emocional. Não sou sexóloga, muito menos coach/guru do sexo, mas não poderia deixar de oferecer destaque a relação prazer = sensação e sentimento. Não é novidade para ninguém que nossa resposta corporal a estímulos físicos está intrinsecamente ligada à nossa ligação emocional. Principalmente, para nós mulheres, já que a (des)educação sexual que inicia o gênero masculino às libertinagens do corpo, os priva de entender e sentir essa ligação entre mente e corpo. Resultado? Sexualidade e relações sexuais deficientes. 

Mas em quê isso deságua no movimento “Meu Corpo, Minhas Regras” e consequentemente em Política? Todo ser humano é um ser político. Todo ser humano que identifica-se como mulher tem em sua trajetória obstáculos à destruir – veja, e não pular -, para afirmar sua existência como ser político. O “ser mulher”, por si só, já é um potente instrumento político na sociedade. 

Chegamos com dificuldade e persistência, graças a nossas ancestrais, em um momento impensado décadas antes: gritamos ao mundo que nosso corpo nos pertence. Hoje, abolimos a depilação, se assim quisermos; transamos no primeiro encontro, se assim quisermos; desmistificamos a maternidade, mesmo tendo ainda o ventre à mercê do patriarcado cristão. Enfim, hoje podemos falar o que queremos de nosso próprio corpo. Ainda que, com julgamentos e pedras jogadas, já falamos que este corpo nos pertence e que com ele queremos fazer o que bem entendermos. Afinal… meu corpo, minhas regras.

Pensando no 31 de julho refleti em como a luta pelo direito ao corpo feminino ainda tem furos. Furos, esses, que encontram-se soltos em uma grande malha que tentamos remendar, porém ainda sem tanto sucesso. Recorrendo ao velho amigo Google, a maioria das publicações nesta data se referiam ao ainda tabu do orgasmo feminino e ao dado alarmante, mas não surpreendente, que mais da metade das mulheres brasileiras nunca teve sequer o prazer de conhecê-lo; outras traziam dicas de como aproveitar a data comemorativa – que ironicamente não era acompanhada de motivos para tal. 

Percorrendo tais conteúdos, me ocorreu o fato de lutarmos por livre direito ao corpo sem ao menos sabermos o que fazer com ele nem do que ele é capaz. Podemos conseguir as rédeas, mas se não soubermos guiá-lo não sairemos do lugar. Se não usarmos o mapa, como chegaremos ao destino almejado e como mostraremos a outros e outras onde e o que queremos alcançar. Claro, a sexualidade frágil e mal explorada é um mal de homens e mulheres, mas quem, historicamente, tem sido privada de seu prazer? E, por quê não, de seu querer? 

Vale lembrar da chamada histeria, condição vista como neurológica e psicológica, que supostamente acometia mulheres no final do século XIX. Anos mais tarde, Freud, que dedicou-se à pesquisá-la, conferiu à sua existência o fator repressão sexual inflamado de forte intensidade emocional. Histérica. Qual mulher nunca recebeu este adjetivo? 

Hoje, somos as rebeldes e raivosas dos seios à mostra. Mas que ainda assim, dois séculos à frente, não sentem-se confortáveis com seus próprios corpos, não sabem como tocá-lo, como cuidá-lo e como com ele viver. São muitos os questionamentos que, em peso, podemos dizer, que nós mulheres ainda temos.

Água com ou sem sabão ou com sabão específico de ph neutro? Orgasmo ou gozo? Ejaculação? Espessura ou profundidade? Quantidade ou qualidade?

Faço isso porque gosto ou porque assim me ensinaram? É triste! Ainda temos dúvidas sobre nossa “yone”. Como se o tal órgão reprodutivo não possibilitasse enxergar o órgão sexual e suas potências, como se olhássemos separadamente sem possibilidade de unificação, como se fossem distintos. Há caminho para que haja um novo olhar.

Estaríamos todas nós ainda em histeria?

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