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Não deveria ser assim, mas dizem que quando nasce uma mãe, nasce a culpa. Diabetes gestacional? Minha culpa. O parto não foi o que eu sonhei? Culpa minha. O que eu faço de errado que esse bebê não dorme? Onde eu errei, que não tá comendo?

Esses dias ouvi que os bebês amamentados dão mais trabalho pra se adaptar na escola. E tomei dois litros inteiros de culpa bem gelada porque meu bebê, nascido e crescido numa pandemia, sem contato algum com outras pessoas de afeto (a não ser esporadicamente), não aceita outro colo pra se sentir seguro que não o meu ou o do pai. E chorei porque me senti culpada por não me sentir confortável em simplesmente deixar chorar o ser humano que mais depende de mim nesse mundo, nesse momento.

Então, hoje, pela manhã, entre os espaços das minhas culpas (eu não deveria perder a paciência, eu não devia olhar o celular enquanto estou com ela, não deveria levantar mal humorada às 6h30 depois de acordar zilhões de vezes na madrugada), eu li pra ela um livrinho de dinossauros, imitei os bichos pré-históricos e sorri.

Agora, à noite, ela pegou um dos milhares gibis da irmã esparramados pela casa (a bagunça, sabe, então, minha culpa) e imitou uma pessoa lendo, no seu vocabulário ainda de neném. Culpa minha! Glória minha! Inundada pelas milhares de culpas da maternidade, a gente não consegue admitir que também é nossa responsabilidade o sucesso. Quando a Teresa, na idade da Clarice, imitava uma pessoa lendo, eu justificava: é a escola! Hoje, eu disse pra mim mesma: somos nós!

A criança esperta que vive com você: foi você! A gentileza, a coragem, a doçura: assuma sua culpa nisso também! No mar de culpa, é possível navegar assumindo nossas responsabilidades. Que estão todas misturadas à complexidade do ser humano que estamos, dia a dia, formando, no ordinário do cotidiano, no abraço quando a gente queria é descarregar as frustrações, na comida predileta que a gente fez em meio à correria, na brincadeira quando a gente queria ver uma série, no café coado entre olhos pesados que dormiram bem menos do que gostariam e gritos de criança onde a gente queria o silêncio de acordar devagar.

Elas são meu mar de culpa. Elas são meu salva-vidas das minhas misérias.


Autora: Ariana Pereira – Instagram: @arianapereira.

Texto revisado por Luiza Gandini.

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