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A ansiedade se tornou uma epidemia em nosso país. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo, com mais de 18 milhões de brasileiros convivendo com o transtorno.

Não pretendo com este texto aprofundar sobre os conceitos e sintomas do quadro de ansiedade. Minha intenção aqui é de pensarmos a questão da ansiedade sob a ótica do mundo contemporâneo.

Em tempos de grandes conquistas do mundo moderno devido ao rápido avanço das ciências e tecnologias, vivemos “conectados” com o mundo 24horas/dia. Somos bombardeados com milhares de informações e notícias a todo segundo, vivemos num ritmo frenético com aceleração contínua e a sensação de estar perdendo tempo ou algo. Aliás, fala-se hoje na sigla “FoMO” (fear of missing out) para o medo de ficar por fora nas redes sociais.

Todo esse avanço da ciência, tecnologia e medicina é sensacional. Hoje temos benefícios incríveis e inimagináveis há pouco tempo, mas como tudo na vida sempre tem o outro lado da moeda estamos experimentando também os seus malefícios.

Apesar de todas essas conquistas temos sofrido de males como nunca. Males que vem da alma, ou pior, que nos distanciam dela. Tanto que os índices de ansiedade e depressão seguem em crescimento exponencial. 

Diria que estamos vivendo a “era do ismo”: do consumismo, materialismo, imediatismo e egoísmo, ou seja, estamos sofrendo as consequências de uma cultura do TER ao invés do SER e retroalimentando esse sistema doentio. 

Basta um passeio rápido pelas redes sociais para nos sentirmos cobradas pela conquista da perfeição. Ter o corpo perfeito e o padrão de beleza do momento, ter que ser ótima esposa, profissional bem sucedida, mãe dedicada e socialmente ativa, fazer viagens incríveis, viver feliz e sorridente. Aliás, na nossa sociedade não temos mais espaço para tristeza, dor, sofrimento, cansaço, choro, medo e insegurança. 

A idealização de vida perfeita que criamos não apenas nos distancia de nós mesmos, de quem somos, da nossa essência como nos traz adoecimento. 

Estamos pagando um alto custo por tudo isso, e a ansiedade é uma delas. Claro que temos que particularizar cada caso e buscar individualmente o que está provocando os sintomas, que por mais semelhantes que sejam eles são particulares, pois cada indivíduo é único e singular. 

É importante ressaltar que a ansiedade por si não é uma doença ou transtorno. Em algum momento de nossas vidas todos nós experimentamos algum grau de ansiedade. Ela é natural e faz parte do cotidiano, sendo considerada uma reação normal (esperada) diante de eventos e situações em que temos uma grande expectativa, medo ou insegurança. Como por exemplo, momentos que antecedem uma cirurgia importante, entrevista de emprego ou risco real de perdê-lo (quando tem uma galera no seu trabalho sendo demitido), saltar de paraquedas, o nascimento de um filho, viagem muito esperada, o dia do seu casamento, ser vítima de um assalto, início de namoro, entre outras situações. 

Os sintomas de ansiedade que o nosso corpo vivencia são sinais de alerta para nos proteger de um perigo real, mas quando esses sinais aparecem com uma certa frequência e sem um risco evidente ou, quando o indivíduo apresenta ansiedade e medo elevados de forma desproporcional a situação vivida falamos em transtorno de ansiedade. Quando isso acontece a pessoa percebe alguns “impactos e prejuízos” na sua vida e rotina. 

São várias as classificações do quadro de transtornos de ansiedade (fobias, stress pós-traumático, TOC, transtorno de pânico, etc.) e citarei aqui a descrição da Ansiedade Generalizada pela Organização Mundial da Saúde /CID 10: 

“Ansiedade generalizada e persistente que não ocorre exclusivamente nem mesmo de modo preferencial numa situação determinada (a ansiedade é “flutuante”). Os sintomas essenciais são variáveis, mas compreendem nervosismo persistente, tremores, tensão muscular, transpiração, sensação de vazio na cabeça, palpitações, tonturas e desconforto epigástrico. Medos de que o paciente ou um de seus próximos irá brevemente ficar doente ou sofrer um acidente são frequentemente expressos”.

Sob a pressão do nosso imediatismo, acreditamos e buscamos fórmulas mágicas e prontas para ter sucesso, para emagrecer, ser feliz, ganhar dinheiro. Queremos receitas prontas para educar os nossos filhos, para nos tirar da angústia, da ansiedade, tristeza e do vazio existencial. Contudo, precisamos aprender a conviver. Conviver consigo mesma, com as suas dores, angústias, alegrias, tristezas, medos, ansiedades, habilidades, inabilidades, conviver com o outro, aceitar seus defeitos e qualidades, integrando e aceitando as mazelas e alegrias que cada um de nós carrega dentro de si.

Apesar das promessas e imagens de “vida feliz” que encontramos facilmente na internet, não existe fórmula mágica para se viver pleno e feliz. Viver requer esforço. É necessário aprender a lidar com as imperfeições, frustrações e a dor. A alegria faz parte da vida e a tristeza também. 

Sendo assim, vale pensar a ansiedade como uma oportunidade de percorrer caminhos de aprendizagem sobre si mesmo, seus sentimentos e emoções que “pedem” para serem vistos e aceitos considerando a psique com seus fenômenos conscientes e inconscientes. Sair do “piloto automático” que é aquele velho caminho conhecido de se fazer e olhar a vida pelo mesmo ângulo, repetir os mesmos comportamentos, atitudes e ideias.

Referências:

Organização Pan-Americana da Saúde, 23 de fevereiro de 2017, Disponível em:

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5354:aumenta-o-numero-de-pessoas-com-depressao-no-mundo&Itemid=839

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5385:com-depressao-no-topo-da-lista-de-causas-de-problemas-de-saude-oms-lanca-a-campanha-vamos-conversar&Itemid=839


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