Mulheres-mães protagonistas da própria história

Gritei em praça pública

Gritei em praça pública

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Por Camila da Silva Dutra – @asilvadutra_ 

Quando minha filha ainda cabia enrolada em mim, fui para uma manifestação entre mulheres para dizermos “Não” ao governo que assumiu o poder nas eleições que viriam a acontecer. 

Hoje revisitei meu grito e resolvi escrever o que naquele momento era palavra debatendo por tudo dentro de mim. Licença. 

Meu papo é para você, sujeito bonitão, que se diz PAI. Mas, vale falar que pai, pai a vera mesmo não é quem fecunda não. Vamos lá, meu querido, presta atenção: 

A mãe da sua cria é quem teve que abrir mão, seja lá do que for, para chegar até aqui, agora, com tudo o que é possível. Você, que não fez questão de constar como filiação na certidão, que pediu exame de DNA para poder adiar um pouco mais essa função […] pagar pensão é judicialmente sua obrigação, aqui ninguém vai te dar biscoito por conta disso não, filhão. Nada supre sua falta, presença e atenção.
Se uma criança dorme na sua casa a cada quinze dias, isso, sinto te dizer, não é criação. Tirar foto e pensar em uma legenda, que bonito, deve ter dado um trabalhão e me conta, como é ser chamado de paizão? Seu emprego, como vai? Em quantas entrevistas te perguntam se você é pai? Quais foram as restrições e alterações no seu dia a dia, me conta das sua noite mal dormida, da fralda cagada e escorrida, do banho demorado e de fazer xixi sem ser acompanhado. Eu poderia dobrar essa lista em mais um bom bocado. Porque meu corpo está todo alterado. Volta. Rebobina. É da revolta que nascem essas linhas. E o que você, sujeito progenitor, tem de ser, não é nosso papel de dizer, isso faz parte da sua construção não tem que fazer parte da nossa lista de obrigação, não tem que roubar nossa preocupação. “Pãe” é o cacete, eu tô sobrecarregada tendo que resolver tudo no meio do olho do furacão, e olha que tô fazendo isso tudo com a cria de baixo do braço, trabalho dobrado, puxado e sem receber um puto, porque chamam de amor esse trabalho não remunerado.  E vale lembrar, mãe solo, não é só a mãe que solteira não, viu? Estamos de olho em você também ‘maridão’.

E sabe o que mais me revolta nessa história toda? É que no final do dia é esse mesmo sujeito que vai ser o fiscal de roupa, de conduta e comportamento. Assegurar que faz parte da função mulher parir os rebentos. 

E olha que minha fala é recortada dentro do privilégio que é ter a pele clara nessa mátria brasil que hoje anda armada. 

Mãe solteira não é adjetivo pra ninguém. Foi o que gritei. O texto falado não era bem assim, mas adaptei. 

Sigo cansada e mal paga. Mas grito novamente, porque logo em breve vamos votar para presidente. 
E te pergunto, o que foi que Ele fez pela gente? 

Sigamos, em frente! 

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