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Estou revendo um reality show da MTV chamado “Teen Mom” que mostra o dia a dia de mães adolescentes, numa busca de conscientizar os jovens sobre a educação sexual e sobre o uso de contraceptivos. Como todo bom reality, são apresentados os desafios e dores de uma mãe adolescente: limitações financeiras, dificuldades para estudar, solidão e o peso da responsabilidade. 

Das quatro histórias que estão sendo contadas, três envolvem relacionamentos abusivos com o pai da criança ou outro homem. Duas das adolescentes, especialmente, se mostram presas à relação, mesmo com tanto sofrimento e a desaprovação de todas as pessoas de seus convívios. Elas “amam” os rapazes, apesar do abuso verbal e até físico. Elas saem e voltam ao relacionamento falando as mesmas coisas: “ele não mudou” / ”agora ele vai mudar”. As duas garotas são inteligentes, possuem apoio familiar e material e muito suporte para cuidar de seus filhos. Ainda assim, elas aceitam estar em uma relação infeliz e angustiante, que lhes causam medo, dor e tristeza constantes. 

Ao acompanhar essas histórias me vi diversas vezes nervosa e irritada, ao ponto de gritar com a televisão, tentando avisar a elas a cilada em que estavam caindo. Mas, certo dia, parei para observar o que eu dizia a elas. E as frases que vieram foi:

“Não faça isso!”

“Não seja idiota!” 

“Ele NÃO vai mudar, sua tola!” 

“Você não aprendeu nada com o que ele te fez?”

“Por que você não ouve o que seus amigos dizem? Por que gosta de sofrer?”

Ao olhá-las me dei conta que eram semelhantes às que ouvia de minha mãe quando assistíamos à novela juntas. Naquelas cenas clássicas da mocinha sendo enganada pelo vilão, minha mãe pulava do sofá e bravejava para a televisão as mesmas ideias e até as mesmas palavras. A mocinha que era a “besta”, que não se dava conta do quanto o cara era mau, que não ouvia os amigos bons e que aguentava as situações terríveis que se repetiam. 

Eu e minha mãe temos algo em comum sobre essa questão, perceberam? Colocamos a culpa NELAS, nas mulheres. Nas situações descritas há um casal, duas pessoas, porém, eu e minha mãe escolhemos apenas falar com um lado da história: elas. Fiquei intrigada com isso. Por que não esbravejamos com eles? Por que não dizemos a eles o quanto o seu comportamento está errado? Que eles precisam parar de manipular suas companheiras e fazê-las sofrer? Que eles precisam deixá-las em paz? 

Encontrei as respostas para essa questão em dois lugares: um interno e outro externo. No externo, eu observei como na construção cultural dos gêneros, a mulher é cobrada por saber se desviar dos “homens maus”. Cabe a ela perceber o caráter do rapaz e fugir dele. Simples assim. Mas porque elas não o fazem? Só há uma maneira para eu te explicar isso. Visualize uma floresta, grande e densa.

Cheia de árvores enormes, plantas, frutas e flores. Pense em um pequeno bicho da floresta, procurando alimento e encontrando um delicioso fruto à sua disposição. Ele segue fixo em direção ao seu alimento, até perceber que o chão de folhas era falso e cair em um enorme buraco.

Quando ele cogita ter velocidade para sair do buraco, o caçador tapa o buraco com uma grade de madeira e o bichano se vê preso. Ao olhar esta cena, você pensa no quanto o animal foi infeliz em cair no buraco ou em como ele foi simplesmente enganado por uma boa armadilha? O chão parecia folhas, o caçador não estava à vista, o alimento era bonito, saboroso e disponível como muitos outros que ele já pegou na floresta, por que este seria diferente? Pensando desta maneira será que você agora cogita que o caçador é o foco e não a presa? 

Da mesma forma, a construção cultural da vida da mulher e tudo relacionado a isto (maternidade, corpo, conduta, família) está estruturado em uma visão machista e de controle e poder sobre a figura feminina. E como toda boa armadilha, este lugar de opressão não tem cara de prisão. É bonito como uma floresta com deliciosos frutos: alegria, satisfação, plenitude, respeito, prazer. E te mostro isso com o exemplo das duas garotas do reality show. Quando elas insistem nas suas relações abusivas, as justificativas são uma representação bem clara do discurso que prevalece sobre a conduta de vida feminina. Acompanhe comigo essa relação:

“Não quero me sentir sozinha” – Mulher solitária é sinal de fracasso.

“Com ele, sinto que temos uma família completa” – Mulher responsável pela alegria e harmonia familiar.

“Ele disse que vai mudar” – A maturidade masculina como passível e relativa à paciência da mulher em esperá-la acontecer.

“Vejam o lado positivo dele” – Mulher como aquela que possui instinto maternal de proteção e boa vontade para quem erra. 

“Ele é assim porque eu o deixo irritado” – Mulher como responsável pela conduta emocional de seus parceiros. 

Agora vamos para o lado interno. Neste aspecto eu enxerguei nestas frases os meus próprios pensamentos quando me lembro das dores que vivi em relacionamentos abusivos ou destrutivos.

Por mais que eu saiba que não é minha culpa, algo em mim se angustia em saber que eu decidi entrar naquela relação e viver uma experiência tão dolorosa. Pensar nisso me faz lembrar que minha mãe também sofreu muito na relação com meu pai e todas as vezes que ela me contava a sua história de sofrimento e eu a questionava: “Mas, mãe, por que você aguentou tudo isso?”, ela dizia, “Eu era besta. Se tivesse a cabeça de hoje, não seria enganada como fui.” Assim ela se enxerga também, como a única culpada pela sua escolha.

E para esta dor interna eu vejo a construção externa de responsabilizar continuamente a mulher pelo seu “dedo podre”, suas más escolhas. 

Com toda essa história quero te ajudar a refletir a quem devemos olhar nessas situações: quem machuca, quem erra, quem engana, quem mente. É nosso papel construir um novo lugar sobre nossos diálogos a respeito de relacionamentos abusivos. Se assim eles foram, que os abusadores sejam apontados e corrigidos.

Que sejam vistos seus erros e as consequências deles. E é exatamente isso, o que aconteceu com você e tantas outras garotas que vivem nessas situações é uma consequência da pessoa que a abusou e a maltratou. 


Este texto foi revisado por Arícia Oliveira.

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Escritora de textos informativo e poemas, palestrante, tradutora, mãe feminista de Kabir. Luto pelas mulheres e as crianças e busco conectar informações relevantes a mudança de consciência e comportamento. Instagram: @karla.expansiva.dilacerante.

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