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Fonte: https://www.instagram.com/p/CZJ3AZBrqYN/

Essa imagem passou no meu feed e me deixou irritada. Aparentemente não há motivo para isso. É apenas uma figura feita por uma nutricionista que explica detalhadamente a alimentação ideal e saudável para um bebê vegetariano. Ensina como devem ser divididas as porções e quais alimentos devem prevalecer. Nenhum mistério para quem tem um mínimo de informação desse tipo: verduras, raízes, frutas, cereais. 

O que me pegou nessa imagem é o que ela esconde. Por trás deste lindo e equilibrado prato de comida está o processo de chegar até ele: o dinheiro que pagou os alimentos, a pessoa que se locomoveu para escolhê-los, buscá-los, lavá-los e conservá-los, a geladeira que conservou este alimento, a casa que acolheu esta geladeira. No dia que esta refeição foi feita, alguém seguiu os indicativos dessa imagem. Separou as proporções, cozinhou com atenção para evitar excesso de sal e gordura e fez no horário próximo ao almoço do bebê. 

Na hora da refeição, este bebê foi colocado na cadeirinha e alguém o ajudou a comer. Se seguir a lógica natureba, será utilizada a técnica BLW (Introdução de alimentos sólidos em bebês) e a pessoa estimulará a autonomia do bebê dando a oportunidade dele sentir o alimento com as mãos, comer sem pressa e explorar pequenas porções. 

A cadeira e o chão em sua volta provavelmente ficarão imundos, inclusive o próprio bebê que, logo após a refeição, precisará ser limpo. Depois que ele estiver em um lugar seguro, alguém deverá limpar a sujeira que ficou no local, lavando as louças, guardando os alimentos e deixando tudo em ordem para a próxima refeição. 

Eu fui uma mãe natureba e imagens desse tipo viviam no meu feed porque eu era a pessoa que seguia todas ordens que descrevi acima. Listas e listas do que seria mais benéfico para uma infância feliz e saudável. Alimentos naturais, orgânicos, técnicas da teoria do apego que incluem muito colo e cama compartilhada, nada de bicos ou mamadeiras e, claro, leite materno em livre demanda, remédios naturais, médicos homeopatas, roupas de algodão puro, educação positiva, antroposofia, ayurveda, aromaterapia. Se deixar, eu não paro de escrever todo tipo de conceito e ideia que rolavam nas conversas e amizades maternas nos grupos naturebas. Mas ninguém falava dos bastidores, do básico que qualquer maternidade depende e, a do tipo natureba, mais ainda.

Cumprir todas essas regras requeriam muito tempo para estudar, gerenciar e executar as tarefas, rede de apoio para dar conta de casa, bebê, trabalho e família, dinheiro para bancar os cursos, médicos especiais e escolas diferenciadas. Eu não tinha nada disso. Vivia de bicos e o pai da criança oscilava com trabalhos em yoga e música. Como poderíamos bancar esse estilo de vida? Descobri nas relações deste meio algumas possibilidades de ser beneficiada. Era o jeitinho da comunidade natureba acolher os que não conseguiam pagar. Sempre havia um contato, uma troca de favores, um valor social, uma conversa pra dividir as despesas em 10x e, logo, parecia que eu conseguia me encaixar nesse espaço. 

Ainda assim, eu vivia uma estranha vida natureba onde minha realidade era uma grande confusão. Eu gastava em orgânicos o mesmo valor que pagava no aluguel do apartamento que morava, fazendo com que eu nunca tivesse reserva de emergência ou investisse em algum aspecto importante da família como estudos, trabalho e seguridade social. 

Os biscoitos naturais do meu filho tomavam quase 10% de todo o orçamento mensal, que era baixíssimo, pois, ao manter essa filosofia de vida, era imperativo estar envolvido com o meio – nem eu ou o pai aceitávamos trabalhos em empresas, ou qualquer carreira tradicional. Vivíamos uma dia de cada vez, com o mínimo de dinheiro e com facilidades que dependiam de contatos e amizades. Viajar? Se alguém der carona. Comprar uma roupa? Pegávamos doações de amigos. Escola? Tentávamos bolsas em escolas alternativas que trocassem nossos serviços por uma vaga. 

Mas será que as outras mães também viviam dessa forma? Não! As minhas amigas naturebas moravam em casas muito boas porque, por exemplo, o pai de uma delas deu de presente. A outra herdou da avó. Uma conseguiu um preço mais legal porque a família dela tem amizade com o dono. Parentes faziam questão de pagar o médico homeopata da criança. No aniversário do filho, bisavós davam um carro de presente para os pais. E, claro, tinha aquela que conseguiu uma bolsa na escola Waldorf porque o tio é um dos donos. Essas mães sempre tinham um sogro, tia, prima, amiga, sobrinho, alguém próximo, e com poder financeiro, disposto a bancar o bebê. 

Entendam: TODOS os parentes das famílias naturebas que eu tinha contato não eram nada alternativos. Eram trabalhadores de classe média e alta brasileira. Tinham se estabelecido bem materialmente, moravam em casas próprias e vinham de carreiras bem estabelecidas, especialmente em direito, medicina, odontologia, comércio e outras áreas conhecidas por pagarem bem e sustentarem estilos de vida financeiramente custosos. Nenhum deles vivia de yoga, óleos naturais, terapias holísticas. 

Da parte da minha família, minha realidade era outra: eu e o pai da criança vínhamos de famílias com mães solos, sem educação superior, que passaram dificuldades sérias, tiveram trabalhos medianos e não receberam pensão adequada ou regular de seus ex-maridos. Famílias pobres, sem herança, sem parentes ricos e sem apoio. 

Diante de tudo isso que falei, eu preciso escancarar que o que está por trás dessa simples imagem de “faça uma refeição saudável para seu filho” é o privilégio social. 

Ser um privilegiado social significa ter vantagens que foram definidas e decididas não pela capacidade do indivíduo, mas por estruturas sociais que beneficiam uns em detrimento de outros. E, na maternidade, o privilégio se escancara diante de dados e fatos:

“A maternidade é uma trama que permeia relações e vivências em pluralidade; e os dados sobre maternidade e saúde da mulher revelam especificidades e desigualdades de gênero, raça e classe nessas experiências: durante o aborto, as mulheres negras têm 2,5 vezes mais chance de morrer do que as mulheres brancas (MONTEIRO, 2008); em 2012, as taxas de mortalidade materna foram de 60% em mulheres negras e 34% para as mulheres brancas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2016); e os estudos sobre violência obstétrica trazem que 22% das mulheres negras não recebem anestesia, já entre as brancas a taxa é de 16% (LEAL, 2005).” 

Qualquer pessoa que queira colocar em prática a vivência de uma vida natureba em sua maternidade só vai conseguir isso diante do privilégio social de ter todos os artefatos básicos de dinheiro, tempo, rede de apoio, relevância social e autonomia que só o privilégio oferece. A maternidade é um fenômeno sócio-histórico que culturalmente é mantido pelo discurso opressor de ser uma dita experiência biológica instintiva e inata, praticada de acordo com o esforço da mãe. 

Por isso, a maternidade natureba que descrevi tende a ocultar as práticas sociais que perpassam as experiências da mãe, levando a internalização da culpa materna, aquela que coloca nas mulheres a responsabilidade quase total pela sua criança, enquanto praticamente todos os outros elementos do entorno, como família, pai, comunidade e Estado são desresponsabilizados. 

Eu não tinha qualquer consciência desta questão e por isso continuei por um bom tempo improvisando e cumprindo todas as regras de uma maternidade natureba, à base de uma vida pobre e sem futuro. Até que isso se tornou insuportável quando, em uma mudança de cidade, eu me vi sem perspectiva de moradia, comida, rede de apoio e dinheiro. Passei a depender totalmente de doações e auxílios pontuais – havia dias que meu filho vivia à base de biscoitos e arroz puro… Cansada e irritada, desisti deste estilo de vida e resolvi seguir o que tinha pela frente. 

E o que havia diante dos meus olhos? A realidade. Ela bateu à minha porta de diversas formas: quando descobri que meu perfil econômico se encaixava no Bolsa Família e chorei copiosamente quando recebi o primeiro pagamento, pelo alívio de saber que poderia pagar as contas e ter o que comer; ao conversar com minha colega de trabalho – que recebia o mesmo salário que eu – e perceber que ela vivia com o mínimo porque guardava dinheiro para investir na sua própria padaria, enquanto eu nunca conseguia fazer o dinheiro sobrar porque vivia em um bairro de classe média; quando entendi que não conseguiria colocar meu filho em uma escola vegana e ele frequentaria uma escola de bairro comum ou uma escola pública. 

Voltando ao que falei no início do texto, uma simples imagem dando uma dica plausível sobre alimentação natural é passível de me causar muita raiva, pois ela e muitas outras regras que constroem a maternidade natureba estimulam um discurso de responsabilização da maternidade como um esforço individual, prioritariamente feminino, de querer fazer o melhor e o mais certo para seu bebê. Ela segue a prerrogativa capitalista de que os indivíduos são responsáveis pela sua qualidade de vida, independentemente de fatores externos como a desigualdade social e econômica. 

Eu vivia em condições completamente desiguais em relação às minhas amigas naturebas e só consegui sair desse lugar diminuindo minhas expectativas sobre uma qualidade de vida mais natural para o meu filho e passando a utilizar todas as ferramentas de políticas públicas e sociais que estavam ao meu favor. 

Com isso, eu consegui guardar dinheiro e investir, fazer seguro de vida e funerário, pagar uma nova faculdade, obter benefícios dos direitos trabalhistas e limpar meu nome no Serasa. 

Além disso, adquiri a compreensão de que falar desse assunto – como fiz agora com esse texto – seria uma forma de libertar mulheres de maternidades inalcançáveis e dar-lhes a oportunidade de conhecer os mecanismos favoráveis a sua condição social que podem oferecer segurança, crescimento e transformação reais.  


Fonte:

  •  Fonte: https://www.instagram.com/p/BrANarVlm84/ 
  • DE FREITAS, Bárbara Ferreira. Maternidade e Branquitude: uma discussão sobre os privilégios raciais, simbólicos e materiais. Trapiche-Educação, Cultura & Artes, n. 3, 2019.
  • RODRIGUES, Mariana Borelli. Maternidade, raça e classe: hierarquias, privilégios e opressões entre mulheres mães no contexto do trabalho doméstico remunerado. 2019.

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