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A maternidade me fez viver muitas cenas repetitivas, onde os diálogos se resumiam às mesmas frases, perguntas e respostas. Palpites? Infinitos! Mas havia um momento em particular que me gelava a espinha. Acontecia assim: eu brincando com meu filho pequeno em um parquinho cheio de crianças. Todas se divertem muito e as mães se aproximam e comentam umas com as outras sobre características, idades, gostos dos seus filhos. No meio do papo, uma das crianças cai no chão, outra topa o dedão numa pedra e mais uma se desequilibra em um brinquedo. Todos os olhos se voltam às crianças em questão e uma voz emerge e diz: 

“Nossa! A gente não pode tirar o olho das crianças. Precisamos ficar 24h atentas a elas, né?”

Eu ouvia aquilo e tremia por dentro. Se meu filho fosse a criança machucada, eu disfarçadamente usava a desculpa de atender a dor da criança para me afastar, sentar em um banco e, acalentando meu filho, ter sintomas de ansiedade como palpitações, tremores, choro descontrolado, raiva, vontade de morrer… Por que tudo isso? Porque eu sabia que aquilo era o que havia de mais real e absurdo que podíamos ouvir sobre a maternidade. É preciso realmente ficar 24h de olho na criança e é impossível ficar 24h de olho na criança. Especialmente se você é o único e/ou principal adulto que faz isso. 

Eu entendo que as pessoas falem dessa atenção ininterrupta devido à fragilidade física, emocional e psíquica que uma criança possui. Elas têm toda a razão e embasamento de pedagogos, psicólogos, nutricionistas e outros especialistas da vida infantil para considerar a importância do cuidado constante às crianças. Mas, na vida real, a sociedade brasileira construiu uma forma de amparo às suas crianças que se resume a mantê-las sob os cuidados de sua família nuclear e de uma pequena rede de apoio externa de parentes, vizinhos e amigos. De forma irregular e desequilibrada, há creches e espaços infantis fornecidos diretamente aos cidadãos ou os custosos espaços da iniciativa privada. A escola, em um aspecto, acaba também fazendo esse papel de acolhimento e cuidado das crianças. E ponto final. 

O resultado desse descaso visível são mães sobrecarregadas e os pequenos à mercê de circunstâncias adversas. E nesse texto meu foco ficará nas crianças. Você sabe o que acontece com elas enquanto a sociedade não as cuida? Elas estão sendo colocadas em situações perigosas e completamente contrárias a tal ideia de “24h de olho na criança”. Isso porque é simplesmente irrealizável deixar esse cuidado na mão dos poucos adultos que também são, em sua maioria, os responsáveis por trabalhar para manter a renda familiar. Vou trazer exemplos simples e que foram os motivadores para eu puxar esse assunto. 

Uma mãe dona de casa acaba de se separar e com os dois filhos de 7 e 12 anos vai morar em outra cidade. O pai não ajuda financeiramente. Ela precisa trabalhar e não tem com quem deixar os filhos. Ela resolve deixar os pequenos em casa, trancados e sai todo dia pra trabalhar, 8h por dia. Todos os dias ela vai tensa ao trabalho, porque teme que algo aconteça com os filhos. Ao mesmo tempo, ela precisa de dinheiro para alimentá-los. O que fazer? 

Mais uma mãe sozinha, sem rede de apoio. Três filhos de 6, 3 e 1 ano. Ela precisa comprar comida no supermercado. O mais velho é chamado para cuidar das irmãs. A mãe explica como ele deve cuidar das pequenas e delimitou um espaço na sala onde as crianças poderiam ficar. Ela saiu nervosa, preocupada.  Quando chega em casa seu pequeno menino está suado, com cara de assustado. Ele explica que a menorzinha estava querendo sair do espaço delimitado e que ele passou o tempo todo tentando segurá-la.

Para acrescentar mais elementos reais para essa discussão, trago trechos do livro “Casa de Alvenaria” da Carolina Maria de Jesus, autora de sucesso que ficou conhecida pelo diário “Quarto de Despejo” sobre sua vida na favela. O “Casa de Alvenaria” é o livro subsequente ao seu sucesso e, em vários momentos, o leitor percebe como a Carolina conseguiu conquistar dinheiro, bens e reconhecimento pelo seu trabalho, tendo a possibilidade de viajar para várias cidades pelo Brasil. Mas, a mesma Carolina que exalta seus feitos, relata sua cansativa e solitária vida materna levando suas crianças para seus eventos ou atividades e como elas reclamavam ou não estavam seguras em espaços de adultos. Quando conseguia uma cuidadora, seus deveres maternos nunca se extinguiam. Depois de uma jornada de trabalho, ela ainda fazia comida, limpava casa, lavava roupas, costurava e outras atividades domésticas. Confira nas próprias palavras da autora:

“Quando chegamos em São Paulo fui à livraria autografar. Que suplício, suportar filhos.”

“Levantei às 3 horas para ler e escrever, porque durante o dia eu não tenho tempo, os filhos reinam tanto.”

“A Vera estava indisposta, ia vomitando. Dei-lhe um comprimido de leite de magnésia e um copo de leite. Que suplício! É a vida para mim, atualmente ter que sair com as crianças.”

“Tomei banho, troquei-me e fui para a cidade. Deixei os filhos fechados.”

“Quando entrei encontrei a casa numa desordem tremenda. Os filhos estavam sujos. Xinguei a Dona Maria tia de Dona Rosa. Eu pago-a quatro mil cruzeiros por mês para lavar roupas e olhar os meus filhos quando eu viajo.”

Diante disso, eu quero trazer meu espanto sobre como um país pode simplesmente negar uma estrutura mínima para cuidar dos seus próprios cidadãos. Eu, por exemplo, cuidadora principal de meu filho de sete anos, fico intrigada toda vez que olho para ele e percebo que diante de mim está uma criança inteligente, saudável, feliz, criativa e tantas outras qualidades que acredito que o farão um adulto responsável, comprometido e produtivo para sua sociedade. Porém, sei também o quão difícil é trabalhar e cuidar da integridade dele sem nenhuma rede de apoio. Vamos pensar juntos? Milhares de outras crianças pelo Brasil serão os futuros engenheiros, motoristas, médicos, cientistas e tantas outras funções que tornam a nossa vida melhor e mais tranquila. O mínimo que elas merecem é uma rede de assistência de verdade, que proteja sua existência em todas as suas fases de vida. 

Penso quantas coisas ruins poderiam ter acontecido com os exemplos que dei acima. As crianças que ficavam presas no apartamento poderiam se machucar sem querer e não conseguiriam sair de casa para pedir socorro. O pequeno que tentava controlar a irmãzinha poderia falhar no seu intento e o bebê poderia enfrentar uma situação de perigo. Os filhos de Carolina Maria de Jesus poderiam se perder nos grandes eventos em que ela precisava dar atenção aos inúmeros convidados. E de quem seria a culpa por isso? Apenas de um ser: o nosso país e as políticas públicas que ele não fomenta e estabelece para a proteção dos seus cidadãos. 

Por isso, eu quero alertar que não é mais cabível admitir uma olhar de “normalidade” a condição que impomos às nossas crianças, sendo que há todo tipo de possibilidade e estratégia que já são utilizadas por outros países – e que provaram ser eficientes – para a proteção e cuidado na fase infantil. Elas incluem maior extensão das licenças maternas e paternas (com remuneração), criação de creches e ajuda do governo para que a mãe volte ao mercado de trabalho com todo apoio e suporte necessários. 

Inclusive existe um termo utilizado para representar um dos tipos de políticas parentais progressistas, chamada  “Daddy Quotas” (cotas do papai) – uma parte da licença parental reservada aos homens que são pais. Elas incentivam os pais a cuidarem do bebê e ficarem em casa, permitindo que as mães voltem a seus empregos ou ao mercado de trabalho. Além disso,

“Há vários países, no entanto, que implementaram fortes políticas de licença parental com o objetivo de interromper o desequilíbrio de gênero. Esses países não apenas oferecem folga remunerada para as mães, mas também incentivam os pais a compartilhar esse tempo. Eles também oferecem auxílio para creches no início do ano e pagam generosamente aos pais durante o período de folga, reduzindo o ônus financeiro de ambos os pais.” 

Além disso, esse tipo de política pública consequentemente melhora e facilita a vida dos cuidadores, especialmente das mulheres, que ainda acabam sendo as principais responsáveis pelas crianças, levando em conta que no Brasil existem mais de 11 milhões de mães solo. 

A conclusão que quero trazer é que, de fato, precisamos ficar “24h de olho nas crianças”, mas, para isso, serão necessários muitos olhos, divididos igualmente entre os cuidadores da família nuclear, redes de apoio próximas, creches e escolas de qualidade de meio turno e tempo integral, políticas públicas parentais com boas licenças maternas e paternas, com tempos de afastamento estendidos e remuneração garantida. Ainda acredito que muitas ações podem ser pensadas e planejadas, contanto que o Brasil compreenda o valor de se responsabilizar pelos indivíduos que serão sua força de trabalho e movimentarão sua sociedade com seus talentos e capacidades.


Texto revisado por Daiane Martins.

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