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Acorda cedinho, arruma o filho, leva pra escola, vai pro trabalho, volta, pega o filho, vai pra casa, dá banho, faz janta, toma banho (às vezes) e dorme. No outro dia, igual. E assim é a vida de uma mãe solo que trabalha fora e hoje vou falar dessa rotina cansativa.

Acredito que uma das maiores frutastrações desse tipo de mãe é: “passo pouco tempo com meu filho”, bom, essa pelo menos é a minha. Ter de se render ao mercado de trabalho não é nada legal, é cansativo, exaustivo, frustrante. Eu trabalho fora desde os 3 meses do meu filho, pois é, tive de voltar um mês antes porque sai de licença maternidade aos 8 meses de gestação, porque não aguentava mais minhas pernas, minhas costas, a tensão do trabalho, e quando estava prestes a voltar, a primeira preocupação foi “com quem vou deixar o  meu filho?”. Acredito que essa seja uma pergunta que todas nós, mãe solo fazemos, a próxima foi: “como vou amamentar meu filho?”, essa é fácil de responder, “não vou“!

Em horários que tudo estava mais tranquilo no trabalho, ia eu lá, com as tetas enormes, doloridas pra caramba tirar leite para congelar e dar pro meu filho, confesso que era chato demais, desgastante e não via  a hora disso passar, bom, não demorou muito, tive leite até mais um mês, após isso, secou. Ai vem outra pergunta “e agora?”, bom, agora eu começaria a introdução alimentar do meu filho, com Nestogeno e Papinha, chegava tarde do trabalho, fazia as papinhas, deixava congeladas (nada feito na hora, nem sempre natural… que péssima mãe), ligava a cada 1 hora para saber se estava tudo certo, a cabeça estava mais em casa do que no trabalho. Unf! Cansada!

Pois é, essa foi a primeira fase mais dolorida de uma mãe, não saber o que fazer, se julgar por estar fazendo tudo errado, diferente do que imaginou pro seu filho e a frustração de não ter um trabalho na sua área, ter de ouvir humilhação de ~superiores, estar totalmente morta por dentro, porém maquiada e sorrindo para clientes, por fora.

Bom, ainda hoje eu trabalho fora, meu filho está um pouco maior, as coisas estão mais fáceis, porém, ainda dificultosas. Às vezes, eu paro pra pensar nesse sistema que vivemos, onde você mãe, tem de deixar sua cria na mão de estranhos, pegar ônibus e metrô lotado, ficar umas 9 ou 10 horas fora de casa e ainda ser julgada por isso. Sempre tem alguém que fala “nossa, mas você passa tão pouco tempo com ele”, mas ao mesmo tempo essas pessoas dizem “quem mandou abrir as pernas, a culpa é sua, quem mandou ter e não se cuidar”, pois é, independente do que fazemos, sempre seremos julgadas, porque temos peso duplo ou triplo na sociedade, somos mães, mulheres, periféricas, somos aquelas que têm de se foder de trabalhar pra no final do mês não ter um puto no bolso pra se divertir como quiser sem ter de contar as moedas.

Por mais militantes que sejamos, ainda bate aquele sentimento de fracasso, aquele medo de não estar perto do seu filho 24 horas por dia, acompanhando tudo o que ele faz, perder alguns momentos do seu desenvolvimento. Tem horas que a gente pensa em largar tudo e trabalhar de casa, mas quebra a cabeça, as milhares de perguntas como “e se eu não conseguir freela o suficiente?”, “e o aluguel?”, “e as roupas?”, “e a comida?”, tudo isso e muito mais vem à tona, você não sabe se, se rende à classe explorada trabalhadora, ou não veste, come, ou tenta sobreviver.

Não é nada fácil ser mãe, não é fácl se render a um sistema que você é contra. Ser mãe é sacrifício, muitos dizem, mas eu não quero ser sacrificada, só queria ser tratada como gente que sou, assim todos nós, classe menos favorecida queremos, a falsa liberdade.

Hoje em dia, como disse, estou mais tranquila com isso, não me vejo menos mãe porque tenho de ficar 3 horas com meu filho por dia, infelizmente essa é a realidade de muitas mães que trabalham fora, e infelizmente somos muito julgadas por isso, não queremos ser julgadas por não ter escolha, de ter medo de trocar algo que é “fixo”, por algo duvidoso, sabemos que o mercado não está lá aquelas coisas, então ter essa segurança é no mínimo confortante, porque sei que pouco, mas vou conseguir pagar minhas contas, e nos tempos livres, contando tudo levar minha cria pra tomar um sorvete, pelo menos.

Acredito que ele não será uma criança frustrada por isso, nada como conversar desde o começo, jogo limpo, pra eles entenderem como funciona, e quando mais velho, tentar lutar contra. Não sou derrotada por isso, é uma questão de necessidade.

Outro ponto importante para levantar aqui e que prova que estão pouco se lixando para as mães é: Creche no trabalho, escolas que funcionem integralmente, claro, pública, porque se não você trabalha só pra pagar a escola e não come, não veste e não paga o aluguel. Viu? Não é fácil, inelizmente é preciso ter programas, projetos, coletivos que corram atrás disso do que isso ser disponilizado de bom grado às mães, entende a problemática? Mães são tripla, quadruplamente invisibilizadas e a maternidade cada vez mais romantizada. Isso não pode mais acontecer.

Apesar de sentir muita falta o dia todo da minha cria, eu também preciso e quero trabalhar, é uma coisa tão complicada que eu acredito que apenas as pessoas que passam por isso conseguem entender, sem julgamentos.

E, se você mãe que vive essa mesma rotina, não se culpe. Você também é mãe, aliás, você é tão mãe quanto qualquer outra, os julgamentos a gente ouve e não absorve, porque quem se fode somos nós, falador tem de monte, mas só nós sabemos onde o calo aperta.

Estamos juntas! ✊❤️

 

Autora:

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Jo Uyara – Mãe, 28 anos, comunicadora e idealizadora deste blog.

1 COMENTÁRIO

  1. quantas vezes eu chorei por deixar meu pequeno, quantas vezes eu não quis estar com ele e não pude, caraca, como isso dueu. mas eu não tenho escolha pois senão trabalhar, a gente não come, não veste, não mora. então temos que ir……….. e pensar que estamos fazendo o melhor por eles.

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