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Fui pesquisar no dicionário a palavra “Doméstico” enquanto adjetivo e encontrei: “Relativo a casa ou a família; familiar: economia doméstica.” Então me senti certa ao classificar meu trabalho e minha profissão como empreendedora doméstica. Eu decidi empreender, trabalhando de casa há 1 ano e meio aproximadamente. Desde então, além de estudar para aprender sobre meu negócio e praticar atividades para colocá-lo para funcionar eu tive também que aprender a me relacionar com a rotina de cuidar da casa.

Assim, também, tive que aprender a dividir meu tempo, ordenar minhas prioridades e abrir mão de algumas coisas. No entanto, mais do que fazer esses processos todos, colocar planos no papel, criar estratégias, eu tive que senti-los. Não é tão simples quanto parece, acordar em um belo dia e pensar: Sou empreendedora, trabalho em casa e manter essa pia limpa não é mais minha prioridade do dia. É muito complicado trabalhar sentada, olhando aquela pia cheia de louça e imaginando que quando as crianças chegarem com fome, você vai ter que arrumar um espaço ali para montar um prato de comida e servir.

Talvez, no seu empreendimento, você use sua cozinha e ela se mantém organizada, mas aí o desafio pode ser parar de pensar naquela roupa que está no cesto e que se você usar apenas dez minutos para colocar na máquina, vai ficar batendo enquanto o bolo que você vai vender assa. E o tempo de pendurar no varal, passar e guardar a gente deixa de calcular.

Ficamos ali, na busca de entregar o nosso melhor naquele empreendimento, mas a casa continua lá, na sua alma, em todas as suas crenças te chamando, gritando que ela é a sua prioridade. E sim, somos capazes de virar esse jogo! Mas muito trabalho mental precisa ser realizado e isso também é trabalho e também cansa.

Por isso, precisa ser valorizado. Essa reflexão traz para mim ainda, a questão de quanto é diferente para os homens. Tudo bem se seu marido te ajuda muito. O meu também faz muitas coisas em casa. Porém, o que acho que nos diferencia é justamente o foco, o pensamento. Quando um homem decide que vai fazer alguma atividade, seja ela qual for, ele foca nela e a última coisa que vai atrapalhar seus planos e o serviço doméstico. Vou contar uma história para ilustrar: O filho de 3 anos, amanheceu com um princípio de diarreia. Os pais decidiram que era melhor que não fosse para a escola. Então, a criança passou a manhã em casa, com mãe empreendedora e que com isso, decidiu que trabalharia para seu negócio no período da tarde. A mãe, aproveitou a manhã para colocar a louça em ordem, fez o almoço já com porções a mais, pensando nos nos próximos dias, parou algumas vezes para brincar, para colocar pilhas novas no brinquedo e para limpar o chão rapidamente depois que o pequeno, ao puxar um brinquedo de cima da cômoda quebrou um vidro de óleo para a pele. Ah, me esqueci de mencionar, que também parou para conduzir a criança ao banheiro, banhá-la, oferecer água e a alimentar. Tudo isso, ela faz com muito carinho e amor.

O marido chegou para almoçar, muito tenso com seus problemas de trabalho. Esbravejou um pouco e foi deitar para descansar por alguns minutos. A mãe almoçou com o filho, calculando o horário em que teria que sair de casa e rumar para a casa da avó, onde poderia trabalhar enquanto o filho brinca, cuidado pela avó. Planejou tudo, até que o marido acordou e pediu que fizesse uma mistura rápida.

OK! Ela refez os cálculos sobre o horário, preparou a mistura e serviu, no prato que ficou em cima da mesa por uns 10 minutos enquanto ele estava ao telefone, resolvendo questões do trabalho. Isso mesmo, o trabalho dele não foi interrompido para que pudesse comer a comida quente. O projeto “ir pra casa da avó” seguia em execução enquanto ele almoçava.

Ela escova os dentes da criança e os dela. Penteia o cabelo da criança e o dela. Troca de roupa, troca a criança, sapatos para os dois e vamos. Pega a bolsa com computador, a bolsa com as frutas picadas para a criança comer a tarde, a bolsa com trocas de roupas e sai. Opa, volta, a criança quer levar seus brinquedos preferidos para brincar com a avó e com a bisa, mais uma bolsinha.

Nesse dia, a bolsa com carteira e documentos ficou para trás, esquecida. E nessa volta, o marido pega a chave do carro, depois de escovar os dentes e repassar o perfume, e diz tchau. . – Hein, pode me ajudar aqui? Já estou saindo também! – Diz ela cheia de bolsas e já sem mãos. Sim ajudo! O que quer que eu faça? Pergunta ele, consumindo mais um pouquinho da paciência e da força de vontade daquela mulher. E ela pacientemente responde: – Feche as janelas da casa e me ajude com essas bolsas até o carro. Simples. Básico.

Ufa, ela está no carro e a criança também. A mãe já tinha percebido o sono chegando na criança, lá atrás, quando respirou fundo e conversou docemente, quando a criança chorou por não querer escovar os dentes e colocar os sapatos. E assim foi, a criança dormiu no carro antes de chegar na casa da avó.

Ok! Pensou novamente a mãe. Enquanto ele dorme, trabalho tranquila. Vai dar tudo certo. Porém, não foi bem assim: chegando na avó, ao colocar a criança na cama, choro e mais choro. Foram mais uns 30 minutos, para por fim, trocar aquele colo quente e suado por um pouco de desenho na televisão, depois de cinco tentativas de colocá-lo na cama ou no sofá dormindo.

Ufa, agora vou trabalhar, já são 14:15hs! – E aí, mais choro, ainda causado pelo sono. A mãe agrada, conversa e oferece a fruta que trouxe. Pega a fruta, pica, coloca no pote, entrega a criança e ufa. Agora sim! Finalmente! Vais trabalhar por uma hora e meia até chegar a hora de levar pro futebol!

E é nesse trabalho, de uma hora e meia que colocamos amor, dedicação, força de vontade. E desse trabalho de uma hora e meia que sentimos a sensação de realização profissional e desenvolvimento pessoal. E aqui eu sugiro, que olhemos, todas nós empreendedoras e também as que planejam empreender, que somos empreendedoras domésticas.

Tudo o que acontece no nosso dia, é um empreendimento! Estamos empreendendo a vida!

Escolhemos desenvolver e melhorar todos os dias e por estarmos em casa, fazemos isso com todas as atividades da casa e devemos nos sentir realizadas por essas conquistas também. Não dá para fechar um dia como o da amiga da história contada e achar que só aquela uma hora e meia de trabalho contribuiu para seu desenvolvimento pessoal.

A busca por separar o tempo de trabalho profissional e as rotinas domésticas deve ser constante e a divisão desse tempo vai depender dos seus objetivos enquanto empreendedora e enquanto mãe. E aproveito para enfatizar também o quanto é importante conversar para que uma nova estrutura de divisão dos trabalhos domésticos seja construída, entre o homem, a mulher e os filhos. Empreendedora doméstica, assim me chamo, e empreendo a vida, assim é meu trabalho.

Autora

Larissa Braz. Sou mãe do Eduardo, de 3 anos e sou empreendedora digital. Trabalho com marketing digital e tenho um blog chamado Seu Poder Para Emagrecer, que surgiu da minha vontade de ter sucesso com dietas, mas hoje escrevo sobre a vida além da busca pelo emagrecimento com dietas restritivas, depois de perceber o quanto dietas e a busca por padrões podem ser opressoras e limitantes do poder feminino.

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