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Esforço-me para não ser o tipo de mãe que vai tirar satisfação com as pessoas de quem minha filha reclama ou conta algum caso em que ela se sentiu ferida/traída/magoada. Ao contrário, tento passar para ela, mesmo que de forma precoce, aprendizados recentes de como lidar com isso na minha própria vida. 

Nem sempre é fácil. Exige autocontrole. Respiração no saco (fictício). Contagem até dez. Até ser tomada pelo sentimento de que não se pode controlar o mundo. Nem ninguém. Um conceito que revolucionou minha vida é o da autorresponsabilidade. Quando internalizado, ele deixa muito pouco para os outros. E muito. Ou nada. Para nós mesmos. Depende da aplicação. 

Nessa idade, por volta dos nove anos, percebo que as crianças jogam com o poder da amizade. Fazem do termo uma moeda de troca. Exigem comportamentos sob pena do insurgente perder a aliança. O vínculo. Fora a ameaça de uma ruptura definitiva, há as do dia. Do momento. Ao sabor dos acontecimentos. Ciúmes. Invejas. Raivas. Sentidas. Ou que se querem despertadas no outro. É o caso de afastamentos passageiros. De felicidades excludentes. De um: você não é mais meu amigo (nem que seja só por hoje). 

Diante de narrativas de pendengas entre a minha filha e seus pares costumo me colocar dizendo coisas do tipo: Como se sentiu? Conseguiu verbalizar esse sentimento? É bom resolver isso em você – porque não podemos mudar o outro. Só a nós mesmos. Em suma, faço com que leve para dentro suas frustrações e perceba suas raízes. Às vezes fincadas em nós. E não no outro. 

Dizer isso a uma menina e ajudá-la a lidar com conflitos próprios de seu lugar no mundo é fácil. Mas e quando eu, aos 43, escuto alguém levantar a voz para me dizer: não sou mais sua amiga? Por palavras ou omissão, isso me ocorreu duas vezes, no último mês. E era minha vez de aplicar a teoria. Propus conversas. Coloquei meu ponto de vista. Não teve jeito. Recebi gritos. Ou silêncios. A contrapartida era o fim da amizade.

Como o que não tem remédio remediado está, depois de sofrer, de viver o luto pela perda, de pensar em soluções que envolvessem diálogo, desisti. Em nome do livre arbítrio. Concluindo que não posso impor minha presença ou minha existência a ninguém. Sou tão livre quanto a liberdade de alguém em prescindir da minha companhia e, se existiu, da minha amizade. 

É que amizade se constrói. Com tempo. Com vivência. Com erros. Acertos. Perdões. Escolha mesmo. De estar ao lado de alguém. Que vai agir em desacordo com o que você espera ou quer. Que vai despertar sentimentos contraditórios. Que pode até antagonizar, em alguma situação, o conceito construído para amizade. 

Mas ao descartar alguém que nos aborreceu somos os adultos agindo com a infantilidade não admitida nos filhos. Pregamos maturidade aos pequenos. Nos afogando em birras. Batendo os punhos no chão do supermercado por algo não ter saído do jeito que idealizamos – em um pensar sobre a amizade que culpabiliza o outro por nossos comportamentos. Decisões. Escolhas. 

Virar as costas e mandar cortar aqui – você não é mais meu amigo. Parece mais fácil do que se imbuir da autorresponsabilidade e buscar no espelho não o reflexo do outro. Mas a nós mesmos. 

Aos amigos e amizades – entre crianças ou adultos – desejo que nos façamos perguntas. Que levemos para dentro as frustrações e percebamos suas raízes. Às vezes fincadas em nós. E não no outro.

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