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Quando engravidei aos 16 anos, não tinha ideia do que seria ser mãe. Tive minha filha aos 17, estava começando a adolescência, num relacionamento conturbado e abusivo. Assustada, meio que sem saber o porquê e, ao mesmo tempo, feliz porque é muito louco sentir uma vida crescendo dentro de si, é algo surreal, nunca vivi nenhuma outra sensação parecida.

Quando minha filha nasceu no dia 23/06/2003, com 47cm e 2,880kg (Por que será que as mães nunca esquecem o peso e altura dos seus bebês?) Fiquei muito impactada e ainda sem ter a menor ideia do que seria a maternidade. Eu sempre tive muita ajuda da minha mãe e irmã; o que facilitou todo o processo de adaptação a nova vida que eu havia acabado de gerar.

Eu, nos meus 17 anos, sem saber praticamente nada da vida, não entendia a potência que era ser mulher e uma mulher mãe negra, especificamente. Meio que evolui como ser humano, me tornei mulher, reconheci, me apropriei da minha identidade racial, me tornei feminista, tudo ao mesmo tempo, enquanto aprendia a ser mãe.

No meio desse processo de aprender sobre a maternidade e me fortalecer enquanto mulher, minha filha se assumiu lésbica aos 15 anos. A sensação de surpresa e confirmação de algo que eu já sabia conflitaram com a sensação de medo e pânico. Foi exatamente o que eu senti!

Nunca havia me passado pela cabeça que viveria situação semelhante. E quando recebi essa “notícia”, num domingo de manhã, no dia “da família tradicional Brasileira”, passou um filme na minha cabeça. Lembrei dela com uns 7 aninhos… Numa situação onde eu achava que haveria a possibilidade dela ser lésbica quando chegasse a maturidade sexual.

Depois, lembrei da infância e começo da adolescência; quando ela sempre se mostrou argumentativa, forte, determinada, feminista. E de como ela sempre teve a necessidade de ter sua voz ouvida e nunca se calar diante de qualquer injustiça. Ela se desenvolveu em meio a tanta tecnologia e junto com essa nova geração que veio pra mudar o Mundo.

E foi exatamente isso que ela fez por mim, me ajudou a mudar a minha visão de Mundo. Eu tenho um orgulho imenso pelo ser humano que ela está se tornando. Eu só enxergo amor nela e uma vontade imensa de ser quem é, sem precisar se esconder. Hoje ela tem uma namorada e convivemos muito bem.

Ela me dá força para lutar por uma sociedade mais igualitária para as mulheres, gays, mulheres trans, mulheres negras lésbicas… Para todas nós!  A minha família não tem nada de “tradicional”, é composta por mulheres, que apesar das suas diferenças, escolhem conviver juntas, se respeitam, se amam e se fortalecem nas suas dores.

Minha filha veio para nos curar e ressignificar o sagrado feminino na nossa família. Hoje eu agradeço à ancestralidade por toda essa força visceral!


Autora: Thaisa Juliana. Mãe em construção, feminista negra, militante, escritora da minha própria história. A escrita, para mim, é resistência e cura.

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