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Durante anos venho escutando mães que se sentem culpadas porque o filho se machucou, culpadas porque a filha não foi educada, culpadas até porque o filho adoeceu. Sentem-se nuas quando o filho chora e faz birra em público – deve ser culpa sua que não o deu limite – ao invés de entender a birra como uma reação que pode ser natural para uma criança que está aprendendo a lidar com o que sente e como expressar emoções.

Em todos os exemplos que dei, mas em muitos outros também, chama a atenção o quanto as mães se cobram. Por isso costumo perguntar a cada uma o porquê de se cobrar tanto, o que esperava da maternidade, como esperava que seu filho ou filha seria ou reagiria diante de frustrações e, muito importante, como ela lida com a frustração de que a vida não é como esperada e de que aquele ser dependente dela é diferente do que ela imaginou?

Pude perceber que por trás dos julgamentos há um ideal particular, próprio, para como deveria ser ela própria enquanto mãe e seu(a) filho(a) enquanto filho(a), o pai enquanto pai, os avós, a escolinha, os amiguinhos… portanto, há uma infinidade de idealizações e cobranças que decorrem dessas expectativas.

Aconteceu que há alguns anos, além do consultório, passei a escutá-las – as mães – também num hospital oncológico pediátrico. Desde então, a culpa ressoa também nos questionamentos destas mulheres que se preocupam se houve, por qualquer motivo que seja, alguma falha delas, algum comportamento, receita ou condição, que pudesse ter sido alterada para que seu filho ou filha não tivesse adoecido.

Entretanto, o câncer é um diagnóstico de saúde que tanto médicos, enfermeiros, patologistas, psicólogos, etc e em resumo, todos os profissionais da área da saúde consideram como multideterminado, isto é, sem uma causa única, mas com influência de fatores orgânicos, psíquicos e emocionais. De modo que não é possível considerar um fator isolado como culpado (!) do adoecimento da criança.

Portanto, é coerente que não se pense que é culpa de ninguém, certo? Pois ainda assim, percebo quantas mães ou responsáveis se questionam sobre o que poderiam ter feito diferente.

Diante do impacto diagnóstico buscar uma explicação faz parte do lidar com tudo que está acontecendo, mas quando alguém se questiona quanto a sua própria culpa, a dúvida é uma forma de se implicar e de se perguntar sobre si. Estas mães e responsáveis quando se perguntam sobre sua própria culpa, estão perguntando algo sobre si, algo profundamente importante naquele momento, para aquela pessoa e para a forma como ela poderá se implicar no tratamento do filho ou filha.

Quando ouço uma mãe se questionar ‘se é boa o bastante’, fico a pensar em relação a que ideal ela se mede, qual é sua régua de sucesso? E este é um ponto importante, pois sem abrir espaço para falar do sofrimento não é possível acolher nem acalmar ninguém, apenas estaremos silenciando o sofrimento que para ser elaborado, para passar, para ser suportado, precisa ser dito, pensado, repensado, negado, elaborado e conciliado com as possibilidades de cada um de falar de si e de se perceber.

Desse modo, embora possamos argumentar até que não faz sentido pensar na própria culpa diante de um diagnóstico de um(a) filho(a), adianto que não é porque parece absurdo que deixa de ser sentido como realidade subjetiva para muitas pessoas. Nessa situação, um espaço de escuta e auxílio profissional pode ser necessário para que se possa deixar esse sentimento passar, para que já não sinta culpa de ‘não ser o bastante’, porque o bastante, já está dito, é mais do que o suficiente e possível. E culpabilizar-se pode tornar ainda mais difícil para uma mãe, pai ou responsável acompanhar seu filho ou filha em um tratamento tão delicado e intenso como é o tratamento oncológico.

Para finalizar, se posso insistir: procure cuidar-se. O atendimento psicológico conta com sigilo ético e é um espaço importante onde podemos falar dos medos e das dores até que se possa abrir mão delas. Um forte abraço!

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